Nova reforma ortográfica?


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“Não entendi nada”.
Mayara do Nascimento, postado no Google em 21 de março de 2011, às 8h44.
 
A língua portuguesa já passou por várias reformas ortográficas, cada qual com um objetivo. Houve um momento em que a língua registrou a grafia da palavra farmácia como pharmacia, assim mesmo, com ph, em obediência à sua ascendência etimológica, a sua história. Esta palavra teria entrado na língua portuguesa pelo francês pharmacie, do grego pharmakeia, “emprego de medicamentos”. Até o início do século XX, usava-se a grafia pharmacia.
 
Com a reforma ortográfica de 1911, na intenção de “simplificar” a grafia das palavras em língua portuguesa, pharmacia sofre desfiguramento: o ph é substituído por f e recebe um acento, pois todas as palavras paroxítonas terminadas em ditongo crescente passaram a ser acentuadas.
 
Essa reforma tendeu à simplificação; observem um texto de 1901, extraído do livro O Lar e a Saude da Familia, uma das raridades que tenho em minha biblioteca: “O combate ao pó constitue uma lucta sem tréguas. O ar nunca fica livre de pó. Mesmo num commodo em que a gente imagina estar para assim dizer excluida sua presença, pode-se perfeitamente observal-o fechando-se o quarto e deixando-se penetrar uma restea de luz atravez de uma fresta da janella...” E assim segue. 
 
A reforma de 1911 tentou uniformizar e simplificar a escrita, mas que não foi totalmente extensiva ao Brasil. Somente em 1943 é redigido o Formulário Ortográfico, na primeira convenção ortográfica entre Brasil e Portugal.
 
Em 1971, são promulgadas alterações no Brasil, reduzindo as divergências ortográficas com Portugal. Mas casos de expressões continuavam estranhas e até risíveis: chiclete, no Brasil, era entendido como “pastilha elástica” em Portugal. A lista é notável, mas o assunto não é este.
 
Em 1986, o presidente do Brasil José Sarney promove um encontro dos então sete países de língua oficial portuguesa - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe -, no Rio de Janeiro. É apresentado o Memorando sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O acordo, que resultou deste encontro, foi amplamente discutido e contestado pela comunidade linguística, nunca chegando a ser aprovado. Ou seja, a tentativa de reforma ortográfica na língua portuguesa tornou-se hábito ao longo de sua história. Basta digitar no Google “História da Ortografia Portuguesa” e você terá 26 datas relativas a essas tentativas: inicia-se em 1885 e termina em 2009, quando entra em vigor o Novo Acordo Ortográfico, não ratificado por Angola e Moçambique.
 
Quando ainda estamos travando uma batalha com os hífens do novo acordo ortográfico, surge proposta de simplificação da ortografia por uma nova comissão do Senado Federal. Tem gerado muita polêmica. Afinal, passar a escrever oje, caza, ezersísio, qeijo, omem e elicóptero, por exemplo, não é algo tão simples assim.
 
Tem-se como clara a intenção de nova reforma ortográfica com base na fonética, ou seja, mais ou menos escrever as palavras como as articulamos.
 
Sou contra, e acompanho aqui a crítica feita pelo professor Marcos Bagno, doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Em relação à proposta atual, Bagno é completamente contra e diz: “Na palavra mestre, a letra S tem som de ‘S’ mesmo. Mas na palavra mesmo o Z soa como ‘Z’. E agora? Vamos simplificar escrevendo ‘mestre’ com S e ‘mezmo’ com Z?”
 
Há ainda a questão da regionalidade. Em diversos lugares do Brasil o S de mestre soa como X. Então vamos ter duas grafias? Uma para mestre e outra para mextre?
 
Para quem ainda não está sabendo dessa nova proposta, é bom ver algumas alterações que fazem parte da ideia da comissão:
 
- elimina-se o H no início das palavras, porque ele não é pronunciado: omem, oje, ora, istória...
- não se escreve o U quando ele não for pronunciado: qeijo, qero, qilo...
- somente a letra X pode representar o som de X (=ch): xance, maxo, caxo...
- o som de S seria apenas representado pela letra S: esesão, eseso, pásaro...
- a letra Z seria usada para representar o som de Z: caza, ezersísio, análize, exemplo...
 
E aí: está contente? Como a história das reformas ortográficas apresenta um longo período entre sua proposta e promulgação, vamos ainda ter um bom tempo para assimilar o novo acordo de 2009 e nos prepararmos para novas mudanças. É o que há. 
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor 
email - evertondepaula33@yahoo.com.br

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