Julgamentos


| Tempo de leitura: 3 min
Crianças não pensam como adultos: Piaget disse. Certas habilidades de ordem interna, subjetivas, afirmou, demoram a ser desenvolvidas pelo ser humano. Valores morais, por exemplo, somente serão construídos a partir da interação do sujeito com diversos ambientes sociais. Durante a convivência diária com outros seres humanos - e principalmente com o adulto - a criança irá, aos poucos, construir seus valores, princípios e normais morais. Processo demorado, penoso, mas fundamental para que possamos aprender, conviver com outros seres humanos e sobreviver. “Toda moral consiste num sistema de regras e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras”, ele afirmou. Para corroborar suas teses, partiu para a análise do julgamento moral e estudou os efeitos da coação adulta diante de problemas como mentiras, roubos e desajeitamentos praticados pelas crianças. Como elas se posicionam frente a situações envolvendo acidentes ou danos intencionais? Como avaliam os atos dos personagens e os prejuízos causados por suas ações? Para conhecer melhor, utilizava-se de entrevistas nas quais apresentava às crianças dilemas onde aqueles personagens deveriam ser julgados moralmente. 
 
Na esteira piagetiana, era prática em algumas escolas, durante aulas especiais colocar dilemas para que os alunos exercitassem a difícil prática de julgamento tanto dos seus atos, quanto dos de outros, em situações reais ou hipotéticas. Ninguém culpava ou absolvia ninguém, não era o propósito, mas mostrar que verdades têm lados às vezes conflitantes, excludentes, colidentes, contraditórios. Que não há verdade absoluta e que toda sociedade organizada possui código de valores morais que são mutáveis sim, mas que enquanto vigoram, devem ser respeitados por todos, pois são fundamentais para estruturar e conformar grupos humanos. A tecnologia tornou-nos juízes de tudo e de todos. As publicações da Internet contam com espaço para manifestações de opiniões, como fossem sentenças. Aparece de tudo: concordâncias, discordâncias ponderadas, confrontamentos ideológicos, ataques pessoais infundados, palpites infelizes, manifestações grosseiras e até acusações. 
 
Acontecimentos brasileiros oferecem diariamente prato cheio para julgamentos morais. Esta semana até houve colisão de assuntos: a indecência dos repasses das perguntas da CPI da Petrobras; a operação lava-jato da PF; a declaração de Lula de que no final é o ‘PT quem paga o pato’ sobre o petista André Vargas e seu envolvimento com o doleiro Alberto Youssef; o abandono precoce dos milionários estádios de futebol utilizados na Copa. Sobre todos, bombou o do menino que perdeu o braço e o tigre que o atacou. 
 
Cenário: zoológico. Personagens: menor de idade, 11 anos, seu pai, visitantes. Precauções de segurança: separação entre calçada e jaula; a própria jaula, de grades altas, o tigre; placas com alertas: Cuidado!, Não se aproxime dos animais!, Mantenha-se longe dos animais!. O menino desobedece, pula a cerca, se aproxima da grade. Instiga leão e tigre - que desde tenra idade aprendemos que são ferozes - correndo de um lado para outro; várias vezes enfia a mão nos buracos da jaula, para maior aproximação. Ninguém pede que saia ou o tira dali. Circunstantes alertam. O pai não chama o filho. O tigre ataca e arranca o braço do menino. 
 
Perguntei-me: no entendimento de todos o que seria respeito às determinações sociais? Ao bom senso? O pai teria ensinado ao filho o significado de não transgredir leis? Teria dado exemplos? O que pensam sobre obediência às leis? Como seria o relacionamento do menino com os pais? Com os professores? Quem enfrenta animal feroz é corajoso? Que tipo de pai estimula filho a desafiar tigre? Que tipo de pai encoraja o filho a se arriscar? Os circunstantes: o que os impediu de chamar autoridade para evitar a desgraça anunciada? Tiveram medo de reação negativa? Pensei e pensei. Não. Não tenho ainda respostas. 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários