Comemorações


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Dia do Homem, Dia dos Avós, Dia do Amigo: datas que não foram devidamente comemoradas no mês que terminou. Falta de encaixá-las no calendário, talvez. Culpa da Copa, quem sabe. Passaram quase em branco. A ausência de festividades pelo Dia do Homem merece considerações e pedido de desculpas, pois tão importante que recebe dupla celebração: 15 de julho — Dia Nacional do Homem e 19 de novembro — Dia Internacional do Homem. O escritor César Marques sugere que, na fase nacional, se altere nome e significado para ‘Dia + Noite do Homem Livre’. 
 
Nesse dia — nacional ou internacional — os homens deveriam desfrutar de direitos que lhes são negados, bem como aproveitá-lo para trocar idéias sobre como combater o sexismo; celebrar conquistas e contribuições na comunidade, famílias, no casamento e criação dos filhos. Os criadores do Dia do Homem  sugerem que se denunciem durante esse dia — em seminários públicos, atividades escolares, programas de rádio e televisão, passeatas e marchas pacíficas — a discriminação que sofrem em áreas como assistência social, saúde, família, direito, mídia e, ainda, que o utilizem para projetar imagem positiva de si mesmos nas sociedades e destacar suas contribuições. Objetivos? ‘Promover modelos masculinos positivos (não apenas de astros de cinema ou esportes, mas de homens do dia-a-dia cujas vidas são decentes e honestas). Exaltar as contribuições masculinas positivas para a sociedade, comunidade, família, casamento, guarda de crianças e meio-ambiente. Repensar sobre a saúde do homem e seu bem-estar pessoal, emocional, físico e espiritual. Denunciar a discriminação profissional contra os homens nas áreas de serviços sociais, nas atitudes e expectativas sociais e no direito. Melhorar as relações entre gêneros e promover sua igualdade. Criar mundo melhor, onde todas as pessoas possam se sentir seguras e crescer para alcançar seu pleno potencial.’ E eu que pensava que o simples fato de ser homem — biologicamente falando — já supunha todas essas prerrogativas!
 
Nasci e cresci entre dúvidas existenciais, valorização e exaltação do masculino e de obrigações femininas. Talvez daí advenha a dificuldade em não entender o Dia do Homem — versão Nacional ou Internacional — e achar estão se divertindo conosco quando listam os objetivos de tal comemoração. 
 
A cartilha onde aprendi a ler e interpretar minha realidade de mulher rezava que o universo é feminino, mas pertence aos homens. Que são eles que fazem as leis que não apenas regem o mundo, mas igualmente tudo e todos que estão sobre ele. Que são eles que decidem guerra ou paz para a humanidade. Que são eles que nos permitem — ou impedem — ações, decisões, desejos e aspirações — legítimas, por vezes. Que a força física deles é superior à nossa; moral nem se fala, pois que nódoas permanentes só pegam mesmo na mulher. Que o homem é a cabeça do casal. Manual esmagador, de idêntica crueldade. Mudanças e evoluções aconteceram mais na forma, que no conteúdo.
 
Ser mulher em 2014 estruturalmente muito pouco mudou desde 1014. Enquanto as ocidentais comemoram vitórias ainda são denunciadas atrocidades inimagináveis contra tantas outras. ‘Cherchez la femme’, aconselham para solucionar mistérios policiais mas, garantimos, nenhuma mulher lançou bomba sobre Nagasaki ou autorizou ataque à Faixa de Gaza ou Israel ou foi consultada sobre a estratégia do escrete brasileiro na Copa. Nenhuma opinou sobre o massacre dos ucranianos pela Rússia. Que mulher participou das atrocidades cometidas pelas equipes das Cruzadas, Inquisição ou dos Bandeirantes? E ainda usam-nos como escudo: olha a Graça Foster aí segurando o rojão para não conspurcar o nome de outra mulher, a fim de proteger um homem. Ainda assim, mesmo que num mínimo espaço, ser mulher é sempre o máximo! 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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