Corria 1969. Ano pesado de pós-revolução, perseguição política, medo e insegurança. No Rio de Janeiro, IV Festival Internacional da Canção, tanto na fase nacional quanto na internacional, doce música defendida por Evinha chegava às finais e ganhava o primeiro prêmio. Amor à primeira audição. Envolvida em movimentos estudantis e sociais; apontada como a comunista de roupa preta entre as mocinhas de babados e rendas cor de rosa, ouvi a música e ela foi bálsamo para minha alma ferida, dolorida e naquela época, também esfacelada. Decidi: gerasse uma filha, o título da música seria seu nome. Riam de mim quando eu chorava ao ouvi-la ou quando não conseguia explicar o motivo da emoção. A melodia me sensibilizava, algo no meu íntimo se mobilizava, as lágrimas pingavam. Que se rissem. Estava decidida: mesmo solteira, eu teria filha para chamá-la Luciana.
Aconteceu. Dentro dos conformes, sem burlar regras, casada da silva, dentro dos prazos convencionais: engravidei. Medos, aqueles que toda mãe enfrenta: como o bebê será? Apresentará algum problema de saúde? Cor dos olhos? Peso? Enxoval? Vou dar conta? Vai ser feliz? Que nome, se for menino? Se menina, Luciana, inquestionável. Depois de oito meses de angústia e perigos iminentes provocados por placenta prévia, ela nasceu. Quase a perdemos, mas Lucianas são guerreiras e fortes.
Ela cresceu — séria, responsável, sem muito humor, questionando a maior parte das minhas atitudes. Onde eu era poesia, ela era pragmatismo puro. Eu me derramava de amor, ela ria das minhas maluquices. Lia textos de filosofia para ela, ela achava ridículo. Ela foi excursionar com a turma de escola: fiz-lhe mala para atravessar oceano, de transatlântico, a nado ou a pé, fora o lanchinho: voltou esbravejando por causa da gozação da turma. Aos dezessete participou de intercâmbio e foi estudar no exterior: entrei em depressão. Voltou, fez Administração. Certo dia fez as malas, avisou que ia embora de casa e atravessou de verdade o oceano.
Na despedida fiquei estática, gelada, paralisada do lado de cá, cara colada ensopada de lágrimas no vidro da parede de imigração, até ela sumir pelos corredores: ela sorria. Mais adiante voltou. Acompanhada. Lá de longe, jamais acenou com a possibilidade de voltar para cá e aí perdi as esperanças: aprendi que Lucianas têm vontade própria; que não se deixam levar pelos desejos maternos; que traçam seus caminhos com precisão e se utilizam daquela destreza que nós mesmas lhes demos, durante o processo de ensiná-las a viver.
Deméter e Perséfone, mãe e filha, viviam no Olimpo, juntas até que Zeus entregou a filha para Hades, em casamento, sem a mãe saber. Deméter, quando se viu sem a filha, desesperou-se e se descuidou da terra, que não mais produziu alimentos que abasteciam as mesas de deuses e mortais.
Todos passavam fome, quando Zeus chamou Hades lá das profundezas e combinou com ele que Perséfone passaria temporada lá embaixo e voltaria aqui para a superfície da Terra, quando desfrutaria de outro período com a mãe. Daí surgiram as quatro estações do ano: quando Perséfone se vai, Deméter chora, se desespera, descuida: é Outono e Inverno. Quando ela volta, a natureza explode em exuberância e fartura: Primavera e Verão.
Mudaram, ambas. Se a filha passou a entender as reações maternas e não mais as classifica como explosivas e exageradas, a mãe percebeu que há muito mais de carinho, amor e respeito permeando atitudes sensatas e delicadas da filha, que jamais percebera antes. A mãe nota que a filha hoje usa com os filhos pequenos certo tom de voz que lhe ensinou na mesma prática. Aprenderam a aprender, uma, com a outra. Em pleno Inverno, aguardam iminente Primavera particular a começar essa semana com o saudoso encontro de mãe e filha.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora – luciahelena@comerciodafranca.com.br
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