Amiga se mudou para o Nordeste e lá passou a viver outra realidade. Outro Brasil, os relatos às vezes faziam crer. Nos raros encontros, depois do cumprimento da pauta rotineira — filhos, mãe, irmãos, amigos — passávamos à lista de assuntos extra-círculo. Entravam experiências pessoais de sua incipiente vida e, em seguida, hábitos e idiossincrasias encontradas por ela no espaço que, aliás, se mostrava promissor no tocante a novas e intensas experiências emocionais.
Morava agora nos confins do Nordeste e contrapunha a rotina de vida levada lá com a antiga de cá: encontrava ora imensas semelhanças, ora profunda defasagem nos mini e macros aspectos de vida. Contava coisas escachoantes como a oferta que lhe fora feita por jovem e nova amiga local que estranhava sua aparente solidão: quando fosse preciso, que ela solicitasse os préstimos do fulano, seu marido. Ele é bom, ela garantia, e escaparia da rotina doméstica a qualquer momento, prática usual por lá: melhor mesmo que fora com a nova amiga, tão bonita, tão delicada, tão divertida (materializava, sem saber, preceito de Juca Chaves: antes repartir prato de morango que comer um de bosta, sozinho).
Entre outros relatos, contou das Casas de Farinha, local onde se desenvolve modelo de produção artesanal e de baixa tecnificação do processo de beneficiamento da mandioca, ou Farinhada. Tal modelo traz referência acentuada ao grau de parentesco entre as pessoas e enaltece o trabalho feminino no processo produtivo. A palavra Casa, que adjetiva o empreendimento, não por acaso, também auxilia na identificação da idéia de morada, família, espaço e união. E, entre os participantes da produção ocorre a reafirmação de laços que vão além do caráter produtivo e extrapolam para os de amizade, confiança, respeito e lealdade.
A Farinhada começa ao nascer do sol, vai até o entardecer e seu início é celebrado com o cantarolar e conversas das mulheres. Facas amoladas nas mãos e sentadas em semicírculo em pedras, no assoalho do chão batido, em pequenos tamboretes e sem apoio nas costas elas se preparam para a raspa, etapa inicial do processo. Homens não participam desta atividade, crianças, sim. É o momento das mulheres conversarem de maneira animada e informal sobre assuntos pertinentes à comunidade. Repentinamente ouve-se cantarolar músicas regionais, antigas ou conhecidas ou o relato de histórias e feitos antigos, mitos e conselhos. Sobressai, até o último instante, o tilintar das facas, música de fundo para o trabalho da ruma de mandioca. Em muitos casos, os participantes repartem, com equanimidade, os produtos da Farinhada, importantes na alimentação do nordestino.
Era assim. As Casas de Farinha eram oportunidade de transmissão da cultura oral dos adultos para os pequenos; fonte de renda, além de treinamento informal das crianças em atividade profissional. Depois da distribuição das bolsas governamentais a atividade passou a ser interpretada como trabalho escravo e exploração de mão de obra infantil. Casas de Farinha foram fechadas, como se fossem antros do mal. Homens antes envolvidos na Farinhada estão nos bares “bebendo” as bolsas. Algumas mulheres acompanham os homens nos bares, todas perderam fonte de renda. As crianças não têm mais quem as ensine a cantar, recitar, mitos ou elementos da cultura.
Por acaso houve o convite, aceitei entrar. Hoje faço parte de grupo de mulheres envolvidas com artes manuais. Encontramo-nos semanalmente, trocamos informações sobre nossos trabalhos, receitas, apoiamo-nos, ajudamo-nos e incentivamo-nos mutuamente. Aconselhamo-nos. Às vezes me parece terapia em grupo: escutamos sobre nossas angústias, desilusões, medos, dificuldades, incapacidades, doenças familiares. O passado é fonte de informações e o presente nos convida a viver com intensidade. Aprendemos. Morro de medo de o governo fiscalizar, acabar com nossos encontros alegando trabalho clandestino, feito ilegalmente por pessoas sem habilitação. Se for dar bolsa, quero uma Chanel.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora – luciahelena@comerciodafranca.com.br
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