Estranho: em todos os assentos da aeronave naquele vôo do dia 18 de maio de 2014 da TAM, de Londres ao Brasil, foram encontrados saquinho de emergência, as revistas de praxe e, em destaque, máscara de papel enorme que reproduzia o rosto de David Luiz. Tudo preparado para o início da viagem, avião pressurizado, pessoal a postos, a chefe de cabine dá os avisos finais aos navegantes. E acrescenta: temos o prazer de ter a bordo o jogador David Luiz para levá-lo de volta ao Brasil, onde defenderá nossas cores na Copa do Mundo de 2014. Nenhuma mulher suspirou, os homens ficaram histéricos, a maioria aplaudiu. Ameaçaram sair dos assentos, quando a voz em comando continuou: nos bolsos da poltrona da frente há brinde que David Luiz durante o tempo de viagem autografará, enquanto cumprimentar todos os nossos sortudos passageiros desta noite. Dito e feito. Mais tarde David Luiz percorreu devagar toda a extensão dos corredores do avião, deu atenção, conversou, agradeceu e, embora a encenação tenha sido programada e fotografada detalhadamente pelo marketing da companhia aérea e do próprio jogador, caiu bem na fase que antecedia o acendimento da chama da euforia verde-amarelo dos corações brasileiros.
Daquela noite, como lembranças, guardo a máscara, a paciência e delicadeza — indistintas e permanentes — do ídolo para com todos, e do rapaz que se levantou quando o craque chegou perto dele, abriu enorme sorriso e declarou alto, com todo orgulho e explícita esperança: ‘David Luiz, comprei dois ingressos: um para Belo Horizonte e outro para o Rio de Janeiro’!
Não me lembro do rosto do fã. Na terça-feira, imaginei-o triste
e decepcionado, como o craque, diante do esmagador placar Brasil X Alemanha, desculpe, Alemanha 7 X Brasil 1 — um!, que ninguém me tira da cabeça, foi resultado de ato generoso dos alemães, para não humilhar ainda mais os brasileiros que os tratam tão bem.
Depois da catástrofe da terça-feira, o país ainda não voltou ao normal. Na manhã seguinte ao flagelo, as ruas das cidades brasileiras estavam quietas, silenciosas, clima pesado de pós-tragédia nos rostos dos cidadãos e em volta dos prédios. Cinza geral, misturado com o cinza específico resultante de nuvem de erupção vulcânica. Imagino que Pompéia tenha exibido a mesma aparência, depois que o Vesúvio pregou-lhe aquela peça, no ano 79 dC. E imagino que, como para a cidade italiana e cidadãos pompeianos, surpresa e inesperado — como da goleada — foram tão grandes, que não nos recuperaremos tão cedo: a erupção foi há mil, novecentos e trinta e cinco anos!
O país não voltou ao normal. Por normal, em parte entenda-se recuperar o pique de trabalho e de produtividade. Entenda-se pensar nas nossas mazelas além daquelas do Neymar. Comparar e exigir idêntica presteza de atendimento: se o dele foi quase imediato — e houve reclamação, a maioria dos brasileiros que trabalham e contribuem — espera meses por atendimento classificado de urgente. Observar que se o Brasil ganhou em divulgação midiática turística, precisa se desvencilhar da peja de país sexualmente promíscuo e da impunidade. Exigir que o governo construa — e ele mostrou que consegue — e a toque de caixa, escolas e hospitais com o mesmo padrão dos estádios. Etc, etc, etc, etc.
Grandes lições, porém, com sorte serão percebidas quando o amargor do fiasco diminuir. Ginga não é tudo. Gol é resultado de harmonia, coesão, muito treino e preparação. Não vivemos mais o tempo do time brasileiro entrar em campo e impor respeito ao adversário. O surto cívico deveria sobreviver ao resultado de qualquer campeonato.
Finalmente, concluo que jamais tive complexo de ‘vira-lata’: nunca me permiti foi ser vista como vira-lata com complexo de faraó egípcio Hound.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comercidoafranca.com.br
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