Torcida


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Torcer pelo Brasil? Claro. Todos os dias e de repente: quando as sibipirunas se cobrirem de verde e amarelo, em setembro; quando o pavilhão nacional brincar com o vento contra o azul do céu; quando cedinho os trabalhadores saírem de casa — a pé, de bicicleta, moto, ônibus ou carro — para enfrentar o batente do dia e formarem batalhão esse sim, verde-amarelo; nas manifestações de rua conscientes; quando notícias de jornais e revistas divulgarem a punição exemplar de safadezas dos escroques políticos. Em tais momentos o coração acelerará e a pergunta virá lá do fundo da alma: será que batemos o pé no fundo do poço e estamos subindo? 
 
Torcer pelo Brasil? Claro. Quando advogados espertos se aproximarem com a notícia de premiação compensatória por pressões e opressões políticas sofridas na época da revolução de 64 e nos anos posteriores. Bolada assaz tentadora, aliás, e você, com toda convicção e respeito pelo Brasil disser: não. Não quero, nem acho justo. Fiz parte de movimentos políticos porque acreditava neles. Ninguém coagiu, ninguém obrigou. Fui punida, paguei o preço pela ousadia e considero indecente tomar do contribuinte quantia — federal ou estadual — referente à minha ideologia. Fazer parte é opção. Pagar o preço é lei da guerra e obrigação.
 
Torcer pelo Brasil? Claro. Nas próximas eleições, se procurado, não prometer voto a ninguém. Quem se aproxima e pede seu voto — em nome de amizade, companheirismo, do passado: as alegações são muitas — não o merece. Analisar, isso sim, o currículo dos candidatos e responder: quem é ele? O que ele fez? Há quanto tempo participa de movimentos políticos? É livre? Está livre de tradições políticas ultrapassadas? Sua ficha de serviços à comunidade? Onde e como se destacou? O que ele pretende fazer é irrelevante nessa hora: se pretende derrubar o governo, acabar com a mamata, devolver nossa dignidade perdida, lutar por direitos, isso pode ser balela. Se eleito, o candidato vai receber belíssimo salário e mordomias com as quais você, trabalhador, nem imagina, inatingíveis para quem se vira com salário mínimo. Tenha em mente, sempre, que a trindade salário/mordomias/status configura aquele osso que, uma vez provado, ninguém quer deixar: o poder - inebriante, extasiante e embriagador. Viciante. Uma vez sob os holofotes, faz-se de tudo para retornar ao palco. Vale tudo, até mentir, para conseguir. Observe que figura triste e grosseira é a do político ou da figura pública que caiu do galho: sobe em qualquer ombro para aparecer. Acredite, sim, leitor e eleitor. Não perca a esperança — que é o que nos resta — com os pés no chão. Até as eleições aparecerão mais vocações políticas — antes ocultas e agora reveladas — pedindo, exigindo, conclamando, mendigando seu voto. Observe o aumento de pessoas nos velórios, vernissages, aberturas de estabelecimentos, almoços, batizados, nas praças aos domingos, missas e reuniões religiosas. Todos eles com santinho nas mãos e lindo sorriso na boca.
 
Torcer pelo Brasil? Claro. Sempre, independente do momento esportivo. Torcer pela educação, pela saúde, pelo fim dos descalabros do governo, pelo fim de favoritismos, pelo aparecimento de mais juízes Joaquim. Vamos deixar o pavilhão nacional nos carros, nas casas, nas ruas até as eleições. E depois delas, para comemorar um recomeço, quem sabe? 
 
Opinião: Luísa Gouvêa Russo Brigagão: “Torcer pelo Brasil, simplesmente. Jogadores de futebol não têm nada a ver com o que está acontecendo.”
 
Música: Trecho de Candidato Caô Caô, de Moreira da Silva: “Ele subiu o morro sem gravata, dizendo que gostava da raça. Foi lá na tendinha, bebeu cachaça e até bagulho fumou. Jantou no meu barracão e lá usou lata de goiabada como prato. Eu logo percebi: é mais um candidato às próximas eleições.”
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

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