Não consegui me animar para ver os jogos ou torcer para o Brasil nesta Copa. Tentei: a soma de decepções foi mais forte que meu desejo de usar a camisa. Não acreditei que desse tempo, mas quando vi os estádios construídos a toque de caixa em pé, embora sem retoques e toques finais, pensei comigo: vamos ver se aguentam até o final do campeonato. As paredes ainda resistem, mas os gramados estão quase no fim.
Quando ouvi comentarista esportivo gabar na televisão que ne-nhum ou-tro país do mun-do — e repetiu com ênfase e empáfia: ne-nhum ou-tro! possui mais estádios monumentais de futebol que o Brasil, foi como se tivesse recebido soco no estômago.
Bem, pensei, o de São Paulo servirá como propaganda política; o de Cuiabá, dizem, depois da Copa não vai servir nem para futebol, nem para shows porque não tem acústica; o de Manaus, pensei, talvez sirva para, na melhor das hipóteses, ser museu da fauna, flora e minerais extintos da Região Norte porque mais um pouco a Floresta Amazônica será loteada e repartida entre as nações poderosas que já decolam e aterrissam naquelas terras para exploração. O da Bahia servirá para Carnaval e outras tertúlias. Outros serão redundância ou terminarão em decomposição, como os da Grécia. E em pouco tempo.
Até a Fifa achou exagero tantos estádios. Nasceu de que cabeça iluminada a ideia de plantar esses mamutes brancos em cidades onde o futebol não tem tradição? Senti-me incomodada com tais pensamentos, confesso, ainda com a camisa amarela nas mãos.
Aí foi a vez de procurar alguma informação sobre atualidades e prospecções esportivas nos jornais. Melhor não fizesse. Achei fotos de hospitais públicos brasileiros abarrotados de gente nos corredores e mal acomodada em quartos meio arruinados. Ainda bem que políticos, amigos, a presidente e o ex-presidente — que atuam com o pensamento no povo — têm recursos para pegar helicóptero e descer direto nos hospitais de luxo que são o oposto do que o povão frequenta, não é?
Doeu muito quando li sobre a inauguração da escola padrão e de primeiro mundo na cidade de Franca. Bem estruturada, espaçosa, ampla, moderna, salas equipadas, ginásios de esporte, professores sorrindo com segurança nas fotos, sem medo dos alunos ou dos pais deles. Uma escola pública como deveriam ser todas, do país inteiro. Consolei-me: se são pouquíssimas escolas públicas naquele nível, ne-nhum ou-tro país do mundo tem tantos estádios monumentais de futebol como o Brasil, lembrei. Televisão ligada, quase hora do jogo, eu feito boba com a camisa na mão: ponho ou não ponho? Transmitiram a ‘cerimônia de abertura’. Criação belga? Não acredito: pesadelo brega, aposto.
Mais um golpe sobreveio. A presidente não é de obedecer protocolo, somente seu criador. Ao visitar o Papa, por exemplo, mostrou falta de respeito e educação para com um chefe religioso e de Estado ao não cobrir a cabeça. Mas não abrir oficialmente a cerimônia? Nun-ca an-tes nes-se país — ou em qualquer outro que tivesse hospedado o campeonato — tal grosseria foi cometida. Aí o povo, que está com os picuás por aqui, revidou.
Lembrou que passa seis meses no ano trabalhando para pagar impostos. Que não recebe em troca deles o que qualquer governo decente daria: hospitais, segurança, cumprimento das leis, escolas. Lembrou da profunda amizade que une governo, Sarney e Collor. Que não se pode devolver o que não se recebe: consideração, por exemplo.
Aí, do fundo do peito, saiu-lhe aquele grito que rodou, surpreendeu e estarreceu o mundo. Não foi bonito. Foi catártico e merecido. Nun-ca an-tes na his-tó-ria do nosso país isso acontecera. Abriu-se o precedente. Guardei a camisa. Quem sabe depois das próximas eleições?
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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