Emocionada com o retorno a Ouro Preto percorro a praça com o olhar, subo a ladeira e o encontro diante do Museu da Inconfidência — fechado porque os funcionários estão em greve, descontentes com as péssimas condições de trabalho, justificam. Cláudio, o guia, baixinho, vestido com jaleco da prefeitura local, bordado com vários distintivos, aproxima-se devagarinho e, como todo bom mineiro, fala manso e baixinho. Quase não entendo o começo da conversa, mas acompanho o resto da abordagem: há greve porque os funcionários, coitados, pararam. Acharam injusto trabalhar sem salário digno e benefícios como saúde, plano de carreira, revisão de horários, essas coisas, dona, a que todo bom trabalhador tem direito. Emendou com palavreado confuso, só passei a entender a partir da outra metade da fala, que era sua apresentação: sou guia concursado, fiz cursos, sempre morei aqui, conheço bem a cidade e região, posso lhe mostrar e contar miudidades da nossa história. Ganhou-me pelo miudidades. Foi contratado. Solicitamos que não falasse sem parar como o guia do dia anterior em Tiradentes, cujas explicações, em duas horas de charrete, dava uma enciclopédia. Que só respondesse nossas perguntas porque, achávamos, conhecíamos o suficiente da história do lugar. Ledo engano. Cláudio nos deu aula sobre Ouro Preto.
O local onde a cabeça de Tiradentes teria sido enterrada, depois de surrupiada da praça? Ele sabia, me levou lá. (Arrepio forte.) Sugeriu-nos visita a antiga mina de ouro recém descoberta, após século e meio oculta dos cobiçosos olhos do homem pós ciclo do ouro. Túnel com mais de cento e cinquenta metros escavado na pedra, com bifurcações e entroncamentos internos. Há quem o percorra inteiro e chegue ao salão principal lá embaixo, onde o ouro era mais abundante. Para pessoas de espíritos inquietos e imaginativos, o percurso não atinge vinte metros e a imagem de negros oprimidos, ensanguentados, castigados de forma desumana junta-se a urros e sussurros doloridos e tiram-lhes a respiração. Melhor voltar.
Um pouquinho de convivência, Cláudio quer saber se tenho filhos, pede para vê-los no celular. Pergunta onde moram, se tenho netos, quer os nomes de todos, acha graça dos apelidos. E revela aos poucos seu espírito simples e pureza de coração. Ovacionado e festejado onde chegávamos, perguntavam-nos, brincando, se ele estava falando pelos cotovelos, como de costume... Percebemos nas respostas sorridentes a esses gestos o tamanho da delicadeza de seu espírito e a fidalguia de suas maneiras: estava cumprindo nossas determinações iniciais. Por termos impedido que falasse, mesmo pelos cotovelos, perdêramos um bocado de informação. Azar nosso.
Cláudio, retribuindo a apresentação de nossa família, falou da sua. Conheceu a noiva e casou-se com ela ao longo de trinta dias. Foi à quermesse, viu-a, convidou-a para tomar refresco. Ela aceitou, ficaram olhando um para o outro e ele disse que estava com vontade de casar com ela. Ela disse: eu também estou. Então vamos casar. Têm duas filhas: Michele Los Angeles e Rosiane Nova Iorque, em homenagem aos dois ‘países’: vocês os conhecem? A casa deles fica permanentemente destrancada, mas os espíritos do bem tomam conta. Ninguém entra sem ser convidado. Ele acredita na bondade das pessoas. Subimos e descemos ladeiras, fomos buscar o carro no hotel para continuar o passeio. Quer ir ao toalete? Quero. Deu com o lobby cheio, ficou assustado e voltou-se para mim: é tudo gente chique! Bobagem, Cláudio: mais cedo ou mais tarde também irão fazer a mesma coisa. Riu-se, daquele jeito transparente e modesto.
Ouro Preto é referência histórica de tesouros do Brasil Colonial como coragem, bravura, ousadia, insurreição, ouro e riquezas minerais. E é onde mora Cláudio, o homem bom. Poderia ter sido a inspiração para Vinícius e Chico na composição de Gente Humilde.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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