Brasilzão mineiro


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Sabe de onde surgiu a expressão mineira ‘sem eira nem beira’? Pois é. As antigas casas do tempo em que Ouro Preto, Tiradentes, Mariana eram habitadas por sinhazinhas e sinhôs, as casas muito ricas tinham cimalha - o trabalho com tijolos e massa que dá acabamento à parede externa das casas coloniais e que enfeita sua parte mais alta, onde se assentam os beirais do telhado. As casas ricas tinham eira e beira - dois trabalhos em alvenaria que substituíam a cimalha - diferentes dela, mas igualmente decorativos. Algumas casas, mais abastadas, tinham até tribeira - três eiras, por assim dizer. As casas remediadas tinham apenas eira. Quando o rei cobrava tributos, mandava olhar as eiras. Três, duas ou uma? Pagavam proporcional. Dos sem eira nem beira, não cobravam, porque significava pobreza, mesmo. As moças casadoiras também escolhiam noivos pelo mesmo critério: adivinha quais levavam desvantagem? Isso é assim desde que o mundo é mundo... 
 
Sabe como apareceu a frase ‘feito nas coxas’ como referencial de trabalho mal-feito e sem esmero? As casas do povo e os lindos casarios do Brasil colônia habitado por senhores, sinhazinhas e gordas sinhás tinham cobertura de telhas feitas pelos escravos negros. Eles pegavam o barro, moldavam-no nas coxas. As diferenças entre as pernas humanas se repetiam no resultado do trabalho dos oleiros e essa irregularidade dos tamanhos e curvaturas das telhas provocava transtornos: por causa dessas inconstâncias as goteiras encharcavam as casas. Qualquer trabalho mal feito, sem cuidado, é avaliado como ‘feito nas coxas’. 
 
Já ouviu falar em ‘lavar a égua’? Eu adorei saber. Nem sei se é verdade, mas o simpático condutor da charrete que me contou, garantiu sua veracidade. Em Tiradentes, Minas Gerais, há três igrejas conhecidas como a ‘dos brancos’ - suntuosa, rica, maravilhosa; a ‘dos pardos’ - bonitinha, mas sem identidade, como os mulatos da época da construção que não pertenciam à turma dos brancos e não tinham lugar entre os negros. E a Igreja dos Negros, que me fascinou. Foi construída à noite, para não atrapalhar a atividade diurna dos escravos e tem altar sóbrio, igualmente enfeitado com ouro à semelhança daquela dos brancos. Tal ouro era, claro, surrupiado das minas de extração e levado em pequenas porções sob as unhas, nos dentes, nos cabelos dos trabalhadores. Principalmente nos pêlos dos animais. Misturado à lama, o pó do ouro era esfregado nas éguas e burros. Levados ao pátio interno da igreja mais tarde, os animais eram lavados e ali mesmo se separava o ouro da lama com que enfeitaram lindamente o altar da igreja. Até hoje, ‘lavar a égua’ está associada a granjear lucros, obter vantagem extra. 
 
As mesas mineiras - aquelas grandes, de tábua corrida, que as avós mineiras da gente enchiam de broas, pão de queijo, leite quentinho, goiaba em calda, queijo branquinho, quitandas, geléias, café fumegante coado no coador de pano, tudo sobre toalha branquinha e bordada - sabe por que têm gavetas sob o tampo? Para os comensais esconderem o prato de comida quando chegavam visitas na hora do almoço ou da janta. Mineiro, eles mesmos dizem, é pão duro. 
 
Revi as Minas Gerais. Matei saudades das serras, cachoeiras, estradas em curvas, do cheiro da cozinha. Entrei por Visconde de Mauá, subi até Tiradentes, Ouro Preto. Devagarim. Milhões de curvas. As serras me encheram os olhos. O sotaque me fez lembrar parentes e amigos. As expressões me confundiram: ‘e não é?’, diziam toda vez que confirmavam o que eu dizia. Vim pela Estrada Real. Encontrei riquezas: ferro, minas, pedras preciosas. 
 
Fiquei pensando em como amo esse país tão rico e tão pobre ao mesmo tempo. Um país que se tivesse um governo decente seria o paraíso na Terra.
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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