Medo


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Certa vez no hotel cheio de estrangeiros em Copacabana, quando as portas do elevador já estavam se fechando, entrou uma senhora, evidentemente turista que, claro, desconhecia a língua esquisita e difícil dos locais. O silêncio pesava. No lento e cheio elevador, deu tempo para o ascensorista carioca fazer graça. O rapaz, falando carioquês cheio de xis, olhou para a senhora e disse que, ‘Cristo! Você é feia, muito feia!’ Disse a ofensiva frase com sorriso aberto mas ela só entendeu o sorriso, não as palavras. Respondeu com outro sorriso acompanhando seu balbucio ádvena. Enguiçada desde menina, com clara vocação para defender fracos e oprimido, me movimentei para esculhambar o rapaz, meu corpo foi para a frente, claro gesto de desafio, quando meu marido me olhou tão feio, que não tive coragem de fazer nada. Uns viraram o rosto para rir, outros ignoraram, só eu bufei e devo ter ficado roxa de raiva. Nunca gostei de presenciar qualquer humilhação, especialmente daquele tipo, que pega a pessoa indefesa. Imagino aquela senhora contando aos seus conhecidos, de volta à sua terra, que os brasileiros são alegres, descontraídos, sorriem quando falam, que um ascensorista disse alguma coisa para ela, que devia ter sido algo alegre porque ele sorria quando falava, só uma moça mal humorada que estava no elevador, não gostou. Que os brasileiros são amigáveis e de espírito alegre. 
 
Em São Paulo, quando ainda se podia andar a pé pelas ruas sem perigo de morte, fui parada por estrangeiro suado que pediu, por favor, que lhe indicasse tal lugar, em tal rua, que ficava naquelas imediações. Quanta surpresa ao verificar que quilômetros separavam o sujeito do endereço desejado e que algum gaiato deu a direção oposta para troçar dele. Imaginava o sujeito rindo às gargalhadas, contando no bar, aos presentes, a peça que havia pregado no estrangeiro que deve ter comentado, quando voltou para sua casa, que os brasileiros são solícitos, mas que algumas vezes se enganam. 
 
Provável que tenha atribuído o erro a uma vontade tão grande de ajudar, certa e lamentavelmente atrapalhada pela dificuldade da língua. 
 
Pense. Quantas vezes você já entrou num táxi no Rio, São Paulo, Salvador, Natal, Manaus ou Brasília e percebeu que o motorista deu voltas e mais voltas até chegar ao destino porque sacou que você não conhecia a cidade, era ‘de fora’? Há motoristas honestos, sim, mas há outros que, benza-os Deus! Há aqueles que perguntam se o passageiro quer determinar o caminho e quando você responde — ou dá a perceber — que não tem a mínima idéia, ele esboça sorriso sardônico, dá partida e só você não escuta o som das moedinhas caindo no cofrinho dele. 
 
Em bares, botecos, até restaurantes, já erraram no seu troco ou na soma dos itens que você pediu? Já? Então me diz: para mais ou para menos? Nas barracas de artesanato de Fortaleza, Rio, São Paulo: quantas vezes você quase pagou extra na soma que lhe apresentaram? Lembra de quadro de programa humorístico que mostrava garota muito bonita que repetia o bordão ‘Brasileiro é tão bonzinho!’ porque, quando ela subia na escada (usava saia curtinha), os brasileiros se estapeavam para segurar a escada para ela? Porque quando ela sentia dor nas costas, os colegas se engalfinhavam para saber quem iria fazer massagem nela, do calcanhar à nuca? ‘Brasileiro é tão bonzinho!’ Horários. Você combina determinado horário para se encontrar com alguém. Você o obedece? A pessoa com quem você combinou é pontual? Quem encontra carteira recheada de dinheiro e cartões de crédito: fica aflito para encontrar aquele que a perdeu e, achando, a devolve sem hesitação? Sei não. Além da vergonha, que até o Ronaldo sentiu, estou com medo. Muito medo.
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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