Fosse começar vida adulta nos dias atuais, não sei se teria algum êxito. Namoro, por exemplo. O que é namorar hoje? Não tem paquera, não tem recadinho, flores são raras, não tem bilhete, não tem telefonema só para ouvir a voz do ser amado e muito menos a extra-sístole — aquela sensação do coração suspender seu batimento e a gente perder o fôlego e a respiração só de imaginar — veja bem, i-ma-gi-nar a aproximação do alvo do nosso interesse. E ver o ser cobiçado, então? Dor no estômago, suor frio percorrendo o corpo dos pés à cabeça, a perda do jeito e da autossuficiência quando da aproximação dele. Ou dela. O interesse amoroso se revelava por sintomas físicos e psicológicos fortes, intensos, verdadeiros embora, como hoje, somente às vezes permanentes. O amor ardia. O amor doía. E sexo, que poucas moças revelavam conhecer — e feito quase sempre às escondidas, era corolário de extremo desejo de um pelo outro. Sem banalização, sem banalidade.
Caretice? Pode ser. Mas ouvir relato em local público, em alta voz, de romance moderno vivido pela moça bonita recém-saída da adolescência, me deixou sem fala... Ela estava no bar, viu o moço, ele se aproximou, conversaram trivialidades, saíram, entraram no carro, foram para local reservado, transaram. Ela se ria, ao contar: esqueceu de perguntar o nome dele, ele também não sabe o dela, pelo mesmo motivo. Não sabem porque não trocaram telefone, nem sabe se um dia se verão novamente. Parece roteiro de depressivo filme noir dos anos sessenta, quando as pessoas — homens e mulheres — fantasiavam fortuito, inconsequente e imprudente encontro sexual com desconhecidos. Em momento algum da descrição, me pareceu liberdade de atitude. Infelizmente.
A mesma displicência — que eufemisticamente chamam de independência, direito e autonomia de viver a vida conforme seus desejos — observo nos discursos daqueles que optaram pela dissolução do casamento. Separações são temporais destruidores, mesmo quando não há filhos envolvidos. Se existem, aí os danos são incalculáveis. Rompimentos — do consensual ao litigioso — deixam marcas naqueles que estiveram envolvidos em qualquer relação de intimidade. No conviver, compartilhar e dividir situações que permeiam o cotidiano, entramos em contato com traços da personalidade do companheiro, ou companheira, sejam eles de boa saúde mental, idiossincrasias e até de insanidade e loucura que todos temos dentro de nós. Nós nos revelamos no convívio, nos despojamos, nos desnudamos um ao outro dia após dia e isso marca nossa personalidade. Quando se dá a separação, infelizmente não há borracha para apagar o passado. E levamos para os novos relacionamentos, tanto as cicatrizes quanto as lembranças do tempo que passou.
Não sou tão moderna, não raro meu discurso e ideias são ultrapassados. Justifico: algumas gerações, como a minha, receberam instruções e prescrições precisas e claras sobre a necessidade de manter o casamento principalmente se existirem filhos envolvidos. Líamos na cartilha: é direito dos filhos terem pai e mãe presentes e envolvidos na sua educação. Houve coação para você se casar? Há maus tratos? Não? Então lute para manter sua família. Conserte, não jogue fora o que parece ter se estragado. Busque novos temperos para melhorar o gosto da relação. Considere derrota sair antes do final do jogo. Pensando bem, talvez por tudo isso ritos religiosos inventaram que o casamento só termina com a morte. Na morte de um dos cônjuges, a vida do outro continua. Separações causam permanentes e às vezes irreversíveis desconfortos, escombros, lágrimas e desentendimentos. Com a proximidade do Dia dos Namorados traços românticos da minha personalidade emergem e até me incomodam. Não acho fácil, mas acredito em compartilhar vida inteira com alguém. Acredito em dar a volta por cima. Acredito no amor. Acredito na perenidade do sentimento que encontra na mudança, forma de sobreviver.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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