Empatia


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O processo que nos torna humanos é longo, árduo, passa por etapas, provoca sofrimento, dor: nunca termina. E a mais eficiente técnica de aprendermos sobre os semelhantes é nos colocarmos no lugar dele: empatia, já ouviu falar? ‘Capacidade psicológica que consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro indivíduo.’
 
Quer saber o que o outro sentiu, quando referido com copiosos elogios? Premiado? Agredido? Pense, imagine-se, coloque-se no lugar dele. Bem, não é simples assim. Primeiro dispa-se de preconceitos, ignore pré-julgamentos, foque no assunto, seja objetivo. Por momentos deixe de lado suas medidas e parâmetros. Encare-o. Em caso de avaliar comportamento, olhe-o como se o outro fosse você e tenha com ele a tolerância com a qual você se ajuizaria. Em caso de julgar atitudes, use da mesma complacência com a qual você se apreciaria. 
 
O leitor lê artigo publicado, não gosta do que leu, discorda, sente-se incomodado e parte para o ataque. Sugeriria que usasse empatia nesse momento e pensasse: ‘o que será que o escritor atingiu em mim que me ofendeu tanto, a ponto de eu o avaliar negativamente (sem conhecê-lo) e acusá-lo de traste, insensível, desumano, pulha, sem caráter ou dignidade?’ Ou, quem sabe, perguntar-se se sabe o tipo de gente e cidadão o escrevinhador realmente é: realizações; angústias, barreiras que ultrapassou, dores que sentiu; papéis que desempenhou. Outros pontos a ponderar: teria ajuizado com precisão o que estava escrito ou interpretou como bem entendeu e de forma arbitrária porque estava enfezado? (Julgar o outro é muito difícil. Não seria e nem gostaria de ser juiz por nada desse mundo.)
 
Do ponto de vista do escritor, ele produz e publica o texto para os leitores. Sente que alguns deles, com certeza; outros, nem tanto, saberão que ali estão pensamentos e opiniões expostos por alguém com vivências, experiências, capacidade de análise, personalidade diversas das suas. Nem maior, nem menor: diferente. 
 
Se o leitor gosta ou não, é uma coisa; se encontra ressonância, é outra. Se encontrou alguma resposta, é a glória para o escritor. E se algo mudou dentro do leitor — para melhor — depois do contato com o pensamento do outro, aí o autor delira. Se o leitor gosta, o inventor da obra exulta. Se ele não gosta e não aprova, é prudente se questionar primeiro, antes de julgar e dar sua sentença. A verdade não tem dono, assim como ‘toda unanimidade é burra’. Quanto a mim, há outras perguntas que me faço, enquanto leitora, quando o texto que leio desce arranhando: mexeu comigo porque doeu, me deixou em dúvida, me identifiquei e não gostei, botou o dedo na minha ferida, não entendi ou estou com inveja? Paro e analiso. E nem sempre é fácil aceitar minha própria resposta. 
 
Duas perguntas são recorrentes quando estou com pessoas da minha convivência, ou com desconhecidos que se aproximam, quando percebem que não mordo. 
 
Onde arranjo assunto para escrever, e se não sou atacada quando, ao fazê-lo, contrario algum tabu social ou dogma religioso. Bem, respondo, o assunto está sob meus olhos o tempo todo: é a vida e suas manifestações. 
 
E, sobre ataques, escolhi profissão que me coloca na berlinda e me expõe a avaliações de todo tipo. Se agrado algumas pessoas e me aproximo delas, na contramão surgem militantes da moral e bons costumes que me jogam pedra. Faz parte do processo. Conto com a possibilidade de, um dia, tais pessoas se aproximarem para esclarecermos dúvidas. Do contrário acharei — também por empatia — que o barato delas é atacar. E quem simplesmente ataca o indefeso e o indefensável é que é irracional, desumano, exibicionista, invejoso e pobre de espírito, que minha avó garantia, é eufemismo para a ignorância. 
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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