Voltei no tempo. Lembrei-me da viagem a Nova York com minha filha, coisa de quinze anos. Não preciso o ano, mas foi quando o brasileiro descobriu que sair de férias para outro país era muito mais barato que temporada nas praias do nordeste. Mesmo gastando em dólares, duas semanas na grande cidade americana, com esticadinha em Orlando e passadinha em Miami não era turismo de marajá. Hotéis de verdade, limpos, transporte decente, trânsito exemplar, segurança: pacote sedutor, pois sim. Educação do turista tupiniquim? Zero. Furavam filas; falavam alto em qualquer lugar e, nas lojas que invadiam, atravessavam o atendimento de outros clientes para perguntar o preço de mercadorias. Gritavam para chamar os amigos, assombrados com o baixo preço de algum item. Pechinchavam e pediam abatimento, como se comprassem em feiras de artesanato. Roubavam óculos, carteiras, pequenos objetos, como se fosse a coisa mais natural do mundo, por prazer, para fazer graça. Nos restaurantes, não aguardavam atenção, invadiam, encostavam mesas para sentar todo mundo junto. Tais hordas brasileiras que invadiram NY com grande alarido, como gralhas ou ruidosas maritacas, lamentavelmente fizeram escola...
Era trágico, era cômico e era absolutamente constrangedor. Minha filha, tímida, ex-intercambiária do Rotary, politicamente correta também, pediu-me que não falasse com ela (Peloamordedeusmãe!) Português em público, porque não queria ser identificada como brasileira, temia ser mal vista, à semelhança dos turistas compatriotas, espalhados pela Big Apple... O tempo passou, os costumes mudaram? Nem tanto. Hoje, o benefício do turismo atingiu classes que antes não tinham condição de ao menos sonhá-lo. Aviões estão cheios, navios estão abarrotados e estradas se mostram insuficientes diante da quantidade de veículos que trafegam por elas: terra, mar e ar estão lotados de novos bandos de turistas brasileiros, igualmente ruidosos, barulhentos, mal educados e, pior, sem noção de higiene.
Hoje a filha mora em outro país que, quando conheci, tinha nativos em sua maioria loiros e de olhos azuis. País no passado imperialista, depois de explorar, se viu na obrigação de adotar os filhos ‘ilegítimos’: afinal foi o maior império do mundo, composto por domínios, colônias, protetorados, mandatos e território. Ao longo de anos acompanhei a mudança da população: chegaram indianos, africanos, australianos, turcos, neo-zelandeses, americanos do norte e do centro, tanto que hoje, olhar a Picadilly Circus - cartão postal londrino - é acompanhar o vai e vem de muçulmanos, tailandeses, indianos, africanos, chineses - ingleses todos eles, que continuam falando a língua dos ancestrais e, a despeito de suas roupas típicas, tão ingleses quanto o loiro de olhos azuis que, por sinal, talvez não seja inglês, mas sueco: Londres é a materialização da Torre de Babel...
Escutam-me falando português, ingleses - puros e adotados - abordam-me. O Brasil sediará a próxima Copa do Mundo e eles, fanáticos pelo esporte, mostram-se curiosos sobre o que veem na televisão, escutam nas rádios ou leem em jornais e revistas. Não perguntam sobre o time, mas sobre os estádios superfaturados; não querem saber a distância entre as cidades onde os jogos serão realizados, mas sobre segurança, manifestações e como o governo explica o desvio de tanto dinheiro para construir estádios, se o país tem problema com Educação, Saúde e bem-estar da população. Acho mais fácil explicar que focinho de porco não é tomada, mas ninguém me perguntou sobre isso.
Pior foi a reportagem na televisão sobre a taça Jules Rimet. Dois repórteres contaram na televisão a história do troféu e no final que, roubada no Brasil e derretida, nunca se descobriu o autor da façanha. Não saí mais à rua. E voltarei a fingir que não sou brasileira, de tanta vergonha do governo e dos compatriotas mal comportados que atravessaram o oceano e estão aqui, também.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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