Era assim que nos narravam: ‘Em 22 de abril de 1500 chegavam ao Brasil três caravelas portuguesas lideradas por Pedro Álvares Cabral. [...] A primeira visão, a de um grande monte. Chamaram-no Monte Pascoal. [...] Assim, deu-se o descobrimento do Brasil’. Estávamos nas aulas de história do curso primário no Grupo Escolar ‘Coronel Francisco Martins’. Em nossa inocência, acreditávamos em tudo, sem duvidar de nada. Bons tempos e quanta saudade!
O tempo passou. Nos dias atuais, apesar da versão ‘fantasiosa’ divulgada pela monarquia portuguesa, sabe-se perfeitamente — e pesquisas comprovam —, a verdadeira história do descobrimento sepulta definitivamente a inocente versão de que Cabral chegou ao Brasil por acaso depois de ter-se desviado da sua rota em direção às Índias, ensinada nas escolas. O trabalho de historiadores, antropólogos e cartógrafos, dá cores e tons muito mais fortes à epopeia do descobrimento. Até consolidar sua presença nessa — até então — desconhecida parte do mundo, portugueses e espanhóis se envolveram num fascinante jogo de traição, espionagem, blefes e chantagens. A pesquisa acadêmica mais forte — a sustentar que Duarte Pacheco foi o verdadeiro responsável pelo descobrimento —, foi publicada em Portugal, com o título ‘A construção do Brasil’, de autoria do historiador português Jorge Couto, considerado o principal especialista português em história do Brasil. Seu livro recebeu chancela oficial do governo português.
Sem adentrarmos a detalhes, o que os pesquisadores demonstraram é que devemos esquecer tudo o que aprendemos sobre nosso descobrimento. O primeiro português a vir às terras brasileiras não foi Pedro Álvares Cabral, ao contrário do que até hoje continuam ensinando os manuais de história. O primeiro solo tupiniquim avistado pelos portugueses também não foi o Monte Pascoal, no sul da Bahia.
O primeiro contato dos europeus com as terras brasileiras tampouco ocorreu em 22 de abril de 1500. Trabalhos de pesquisadores portugueses, espanhóis e franceses não deixam dúvidas. Revelam outra história, muito mais fascinante e épica sobre a chegada de colonizadores portugueses ao Novo Mundo.
Segundo eles, como já disse, o primeiro português a chegar aqui foi navegador Duarte Pacheco Pereira, um gênio da astronomia, navegação e geografia e homem da mais absoluta confiança do rei de Portugal, d. Manoel I. Veio quase um ano e meio antes de Cabral, entre novembro e dezembro de 1498, confirmando a existência das terras existentes a oeste do Oceano Atlântico. Desembarcou nas proximidades da hoje divisa dos Estados do Maranhão com o Pará. De lá, iniciou o reconhecimento da área pela costa norte, indo à ilha do Marajó e à foz do rio Amazonas. Regressando a Portugal, o rei d. Manoel I ordenou-lhe que a expedição deveria ser mantida em sigilo. O motivo para que a descoberta fosse tratada como segredo de Estado era bastante simples: as terras encontravam-se em área espanhola, de acordo com a divisão estabelecida pelo famoso Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, quatro anos antes de Duarte Pacheco chegar à Amazônia.
Hoje não somos mais inocentes criancinhas e refletimos, analisamos, para formamos nossas convicções. O que resta concluído, então, é que antes de Cabral chegar, os portugueses já sabiam da existência de nossa terra. Para nós, o 22 de abril de 1500 foi a data em que Portugal, oficialmente, tomou posse da terra brasileira, e não a data de seu descobrimento.
Acreditamos que todos nós, cidadãos brasileiros, merecemos saber a verdadeira história de nosso país. Não podemos mais conviver e repassar para os jovens a estória de um paraíso tropical encontrado por acidente. Um país que, ainda hoje, não sabe ou finge não saber sua verdadeira história, que não se preocupa em ensinar sua origem, infelizmente continua um país que ainda precisa ser descoberto.
Toninho Menezes
advogado, professor universitário - toninhomenezes@netsite.com.br
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