Razões


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Contei parte da minha experiência fora do torrão natal — falei do lixo, do protocolo das reformas internas e externas das casas, do respeito à propriedade alheia, da rotina de ônibus e de cenas que presenciei dentro do transporte público. Partezinha: mínima e ínfima. 
 
Não contei das filas de supermercados, mercado de frutas e verduras. Pega-se o carrinho, faz-se compras e, ao terminar, entra-se na fila para passar no caixa. Quando a longa (não curtinha, como as nossas) esteira antes da atendente e do leitor eletrônico esvazia, você coloca o divisor de compras e, na sequência, seus produtos. Quem estava à sua frente na fila é provável que esteja pagando — com dinheiro, com cheque ou cartão. Sem pressa, sem afobação, tranquilamente a pessoa do caixa faz o atendimento. (Se houver resfolego de algum freguês, pode apostar: é estrangeiro!). Enquanto um freguês está sendo atendido — isso inclui pagar, receber eventual troco, recolher a mercadoria já colocada em sacos plásticos e abrir espaço para a próxima, quem vem atrás, espera. Esperar: sabe o que é isso? Não tem chato algum perguntando preços, pedindo informação sobre localização de algum produto, se pode pegar um saquinho e muito menos se pode passar na frente porque está com muita pressa. Furar fila? A impressão é de que abandonaram a prática desde quando subiram o último degrau da escala zoológica. 
 
Leio que leio jornais por aqui, não vejo notícias sobre dinheiro na cueca de políticos; nenhum figurão construiu castelos com dinheiro público ou com recurso de superfaturamento de obras públicas; não se sabe de alguém da oposição que tenha vendido ou comprado votos para favorecimento deste ou aquele projeto. Ontem deu na primeira página do Daily Mirror: ‘O Homem que não sabia de nada!’, pensei comigo: ‘será que sobre quem estou pensando?’. Li a matéria. Copiaram a manchete, mas o assunto era outro, nem política era. E parentes da nobreza aqui, testemunho da história, não são agradados com benesses. Pelo contrário, o costume é matá-los, se começarem a pedir isso ou aquilo... 
 
Encanta-me, igualmente, poder atravessar ruas, sem medo de cair do céu, brotar do chão ou materializar do nada qualquer veículo que ponha vidas em risco. Motoristas e motociclistas param para o pedestre: já ouviu falar nisso? Condutores sabem que estarão encrencados pra valer, se matarem outro ser humano. Outro ser humano, não necessariamente filho, neto, apadrinhado de alguém. Ah! E não botam fogo em quem está bêbado ou deitado em banco. Enfim, sabe-se que não tem barriga me dói, quando acontecem coisas provocadas pela barbárie. Leis aqui são universais, valem e são aplicadas em igual medida e intensidade para todos. Indistintamente. 
 
Por que não mudo daí, venho embora? A cidadania italiana facilitaria procedimentos para recomeçar mas não saberia ficar distante dos amigos, quereres, afetos e amores; da minha circunstância, das coisas que construí e, principalmente, do que ainda espero fazer. Políticos brasileiros são, via de regra, safados, sacanas, desonestos, infames e vis. Mas tem médicos e professores que resistem, tem Villa-Lobos, Jobim, Cony, sibipirunas, manacás, coqueiros, a Canastra. Leito onde escolhi morrer: de desgosto, alegria, quem sabe, de repente. Em alguns dias, calor de arrebentar mamona, de repente bate brisa que não levanta poeira, mas beija o corpo da gente. Tem sabiá que canta na varanda; quando se olha para o poente nas tardes de junho, perde-se o fôlego diante do espetáculo de luz e cores. Escurece e surgem estrelas compondo tecido diáfano, de profundo azul, salpicado de pontos brilhantes. Aí, acabo por concordar com Tom Jobim: morar aí é uma m*rd*a, meu Deus... mas como é bom!
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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