A invasão


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“A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe”

Charles Chaplin, ator inglês

 
Moro com minha mulher e nosso filho numa casa bonita e ampla, com jardim colorido e cozinha aberta na varanda onde preparo os jantares que tanto gosto de oferecer. É um lindo lugar para se viver. Ou, pelo menos, costumava ser até anteontem.
 
Foi por volta das 23h15 de sexta-feira que uma súbita invasão mudou tudo. Estávamos com um grupo de amigos na varanda, conversando sobre o programa Hora da Verdade Itinerante, que havíamos apresentado de Restinga. Tinha sido uma experiência fantástica. Milena ouvia os detalhes quando resolveu pegar qualquer coisa na geladeira, a passos de distância de onde estávamos. De repente, um grito de pavor cortou a noite. “Aaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiii..... Que nojo”, disparou a Mi, como a chamamos, enquanto atirava uma garrafa de coca na pia e corria rumo a um móvel qualquer onde pudesse manter seu corpo distante do chão. Assustado, perguntei o que era aquilo. “Um rato. Um rato enooooorrrmmeeee. Tá ali, ó. Uhhhhhhhhhhhhhhh”, grunhia minha mulher, lívida de medo.
 
Fui apresentado a Milena há quase quinze anos, estamos casados há sete e pensei que a conhecesse razoavelmente bem. Já vi minha mulher montar a cavalo; carregar um cachorro onze andares escada abaixo e acima de um prédio - o elevador estava quebrado - só para que o bicho pudesse se “aliviar” em paz; enfrentar advogados no tribunal; cuidar das tarefas da casa; acompanhar peões em obras; limpar bunda de neném como se fosse uma louça que se lava sem qualquer trauma. Nada disso a tira do sério. Mas nunca, jamais, em tempo algum imaginei que um roedor de pouco mais de cinco centímetros e cujo peso não deve ultrapassar 100 gramas pudesse levá-la a um ataque de nervos. Foi o que aconteceu.
 
Desde que o maldito rato surgiu, minha casa virou um inferno. Imediatamente, Milena exigiu que o Frank “Avalanche”, uma “criança” de 1,95 e 180 kg que, mais que um funcionário, é anjo protetor aqui de casa, assumisse as funções de general-de-campo e partisse na busca, captura e extermínio do Mickey Mouse sorrateiro. Apesar de julgar missão impossível, o rato foi encontrado e, num canto da cozinha, esmagado pelo destino. O pé do Frank, inclemente, pôs fim à sua existência.
 
Quando imaginei que haveria paz, foi vez do próprio Frank gritar, instantes depois, diante de um outro roedor. A ladainha recomeçou, mas o segundo rato não foi encontrado. Na madrugada, foi armada uma ratoeira tirada sabe-se-lá de onde mas, até agora, a armadilha e o queijo permanecem intactos. 
 
Nestas últimas 24 horas, virei especialista em ratos. Graças às pesquisas que a Mi faz questão de compartilhar comigo, descobri que ratos transmitem muitas doenças potencialmente perigosas. Além da lepitospirose, diversos tipos de “febres”, salmoneloses, sarnas, micoses e até hantavirose que, em casos extremos, pode levar à morte. Para aumentar a neurose da minha mulher, quase sempre vivem em bandos, o que a faz tremer diante da perspectiva de que o defunto tenha irmãos, priminhos e, talvez, uma grande ratazana-mamãe por perto.
 
Mi decretou “estado de sítio” aqui em casa. Até que venha a dedetização na terça-feira, devidamente contratada às 8h deste sábado, nenhum cômodo pode ficar com a porta aberta. A razão é para que, se eventualmente surgir um outro roedor, o maldito fique “isolado” e não consiga andar pela casa. A varanda está em quarentena. Os acessos foram selados, como se pudesse surgir um hiper-rato inspirado em fimes como Anaconda capaz de derrubar uma porta fechada a chave. Estou proibido de usar a minha cozinha e de ir ao jardim. Estava proibido, também, de abrir a porta dos fundos do meu escritório, que também dá acesso a um pequeno jardim. Como escrever sem fumar meu charuto é impossível e como fumar sem abrir as portas também é, consegui uma brecha. Posso abrir a porta dos fundos do escritório, desde que a da frente fique fechada. Assim, se houver outra invasão, fico preso. Com os ratos.
 
Enquanto esperamos a dedetização, a Mi segue suas investigações para saber a origem dos roedores. Ainda não há conclusão definitiva, mas todos os indícios apontam a culpa para o Totó. O buldogue francês - sim, isso existe - que, de tão feio, é bonito, parece ser o culpado. Em seu favor, a julgar pelas evidências colhidas até agora, seu crime foi “culposo”, praticado sem intenção.
 
Acontece que Totó é inquieto e resolveu se divertir com uma tampa de ferro de um pequeno ralo por onde escoa água - e de onde podem ter vindo as pestinhas demoníacas. O cão já foi sentenciado e recolhido ao seu canil, suprema punição para um animal que gosta de rolar pelo gramado. Mas, segundo a Milena, a condenação expira hoje. Ela quer conceder liberdade condicional ao Totó desde que ele se disponha a ajudar na caça aos roedores. Ao que parece, vai se juntar ao exército de um homem só comandado pelo Frank. O João, que está na casa da “vó Sônia”, escapou.
 
Até terça, aposto que ainda vou ouvir muito sobre roedores e afins. Agora mesmo, Mi entrou no escritório para dizer que ratos destroem móveis e instrumentos musicais, como pianos. Não sei a utilidade da informação, já que não toco piano - e nem temos um. Trocava, fácil, por um manual para entender as mulheres. De preferência, a minha. Alguém ajuda?
 
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN 
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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