Perguntaram a Tom Jobim, que morava em outro país, como era morar lá, como era morar aqui. O grande maestro, também conhecido por seu espírito alegre e brincalhão respondeu que ‘morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma m*rd*. Morar no Brasil é uma m*rd*, mas é bom.’ Não sei se fizeram a mesma pergunta a outras pessoas. Não sei de outras respostas à mesma pergunta. Todavia, quando acontece algo inusitado em algum lugar diferente e tenho o privilégio de assistir, o maestro volta à minha lembrança e ouço o canto da Sabiá...
Senão, vejamos. Fora do meu contexto estes dias, quando saio, a caminho do ponto de ônibus vejo que todas as casas da rua possuem lixeiras onde o lixo está separado em caixas. Tudo arrumadinho. Garrafas de vidro numa; embalagens de plástico noutra; lixo orgânico, papéis e na quinta, vidros. Os funcionários da limpeza passam, esvaziam-nas e as recolocam no lugar.
Nas frentes das casas, pequenos e cuidados jardins. Primavera, há vasos de flores naturais pendurados nas soleiras das portas e pequenos canteiros muito bem cuidados, plantas coloridas e perfumadas. Jacintos; daffodils; narcisus; forrações; cáctus; violetas; camélias brancas, rosas e vermelhas e uma imensa variedade de rosas, cada uma com nome próprio. Arbustos de pequenas flores brancas — que parecem nosso heliotrópio — fazem cenário nos canteiros das largas calçadas que ladeiam as ruas do bairro, entremeados com outros arbustos de folhas verdes, vermelhas. E sabem? Ninguém mexe. Ninguém colhe uma mudinha sequer. Ninguém arranca qualquer galhinho para fazer arranjinho. Entendeu?
Aí, perto de onde moro, certa senhora viu duas mulheres descerem do carro e surrupiarem mudas do jardim aberto, em frente à casa da vizinha. Foram alertadas: ‘Esse espaço tem dono!’. E ouviu a resposta: ‘Mas não tem ninguém tomando conta.’ Entendeu? Aí o que é particular não é respeitado. O que está à vista e ao alcance de todos, público ou com dono, se não tem guarda, cachorro ou seguranças tomando conta, é de ninguém. Entendeu?
O bairro é dos anos 30 e está tombado: não se pode alterar nada que componha seu visual. Não é luxuoso, é bem simples, até. Mas é limpo, ruas largas e a simetria de casas, a quase uniformidade das fachadas e a profusão de flores, compõem paisagem de tranquilidade e singeleza. Parece cenário de histórias dos livros infantis. Quando algum morador decide fazer alguma reforma na sua própria casa, ele fixa um papel na janela avisando aos outros moradores o que pretende modificar — dentro ou fora da casa! Fora isso, dá entrada na prefeitura (Council) aos mesmos papéis. Não sai destruindo, não altera a paisagem, não suborna nem é subornado pelos funcionários públicos, não tem papelada, papel timbrado, nem aquele monte de carimbo, para no fim cada um fazer o que lhe der na veneta e acabar com um puxadinho aqui, puxadinho lá. Ah! Entre as casas não há muros altos, cercas de arame, muito menos aquelas serras de campo de concentração. Sim, há ladrões. Sim, há bandidos mas quando são presos, não há leis para protegê-los.
E sim, em sua maioria, são de outros países. Entendeu?
O ônibus chega, o usuário entra, passa o cartão (pré-pago) no leitor automático: aboliram cobradores há muito. Veículo cheio, assentos de idosos, incapacitados, grávidas e carrinhos de bebê são imediatamente desocupados, se o passageiro que entrou pertence a alguma das categorias. Não tem briga, falatório, xingatório. Tem prioridades, sabe como é? Os direitos são iguais, as necessidades, diferentes. Os direitos estão assegurados, as necessidades, reconhecidas. Delicadeza extrema: usuários, mesmo anônimos, quando descem, dizem alto ‘Thank you!’ ao motorista, que acena a cabeça, agradecendo. Ah! E todo mundo usa transporte público! Entendeu?
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.