Na cidade cosmopolita e de multidão de anônimos, dirigi-me à parada de ônibus onde pegaria condução para casa. Menos da metade do dia. Manhã fria, colorida e intensa, como de costume, na terra do fog que ao contrário de anos atrás, raramente acontece: mutação climática, dizem. Sob a proteção de alumínio, mais usuários esperavam suas conduções: a moça bonita, dois senhores, a família inteira — pais, avós, crianças, tias e mais a senhora de cabelos brancos.
A moça bonita, alheia a tudo, mexia no celular, repetindo gestos e costumes dos jovens da sua geração. Os senhores liam jornal distribuído gratuitamente na rua. A família discutia se aguardava — o pequeno placar eletrônico dentro do abrigo de ônibus informava a demora de vinte minutos do ônibus 123, cuja rota lhes interessava. Foram embora, a pé. A senhora de cabelos brancos, sentada no pequeno banco, visivelmente aflita, resmungava algo. Maquiagem nenhuma e batom discreto, farta cabeleira bem tratada e bem cortada em Chanel, casaco de lã marrom, cachecol, bolsa e carrinho de compras. De perto cheirava perfume de avó, algo doce, algo floral.
Os ônibus chegaram ao mesmo tempo. No primeiro entraram a jovem e os dois senhores. No outro, que estacionou atrás, apenas a senhora e eu. Aí percebi a dificuldade de locomoção da companheira. Temendo que perdesse a condução, adiantei-me e, diante do vidro dianteiro do ônibus, pedi calma ao motorista. Voltei-me, ela acenou pedindo ajuda: não conseguia se movimentar apropriadamente. Dei-lhe a mão, ela pegou meu braço e se apoiou. Tentei ouvir o que dizia: em vão. Balbuciava. Pronunciava sílabas. Emitia sons. Esbravejava: parado a um metro da calçada, queria que o ônibus encostasse na guia da calçada, para poder subir... O motorista aquiesceu. Passou pelo aparelho de registro do usuário, identificou-se, entrou e se dirigiu ao banco destinado a idosos que, malgrado o ônibus lotado, estava vazio. Sentou-se, olhou-me e balbuciou algo quando passei por ela. Agradecia-me. Durante o percurso, observei-a.
Idade, mais de oito décadas. Casada: vi a aliança e o anel de compromisso. Relógio e pulseiras: vaidosa. Lúcida. Incapacitada de correr, evidentemente, mas forte e mentalmente coerente, o suficiente para andar pelo bairro com alguma autonomia. Família? Talvez. Enquanto tecia histórias, o ônibus fez paradas, aproximava-se do meu ponto final e ela sentada à minha frente, não se movia. Não sou parente, nem conhecida, pensei, vou parar de me meter onde não fui chamada, desço e não olho para trás, decidi. Dei o sinal de aviso e me levantei. O motorista diminuiu a velocidade, parou e, quando eu chegava na porta de saída, ela se levantou. Sem pressa juntou a bagagem, emitiu aqueles sons estranhos, entendi que novamente me chamava.
Ajudei-a descer, depois de organizar suas compras. Atravessar a rua foi outro drama. Tinha medo, notei. Fui para o meio da avenida, ela sentiu confiança no meu gesto: devagarinho, com esforço, veio aonde eu estava, e chegamos à margem oposta, sãs e salvas. Dirigiu-se para a mesma rua que eu. Fomos descendo, lentamente, ela me apontava flores dos jardins pelos quais passávamos, continuava conversa que eu não entendia.
De repente, parou em frente à única casa de porta amarela da rua, que nunca havia notado. Soltou meu braço, sorriu, entrou pelo estreito caminho do jardim bem cuidado, no meio do canteiro da frente. Procurou a chave, achou, abriu a porta. Voltou-se, tornou a sorrir, entrou, deixou os pacotes no degrau da escada interna, voltou-se apressada, grunhiu — me chamava, tenho certeza. Acenou com as duas mãos, entrou e fechou a porta, nem me deu tempo de lhe agradecer tal oportunidade de ser útil. Passei outras vezes por lá, nenhum movimento. Janelas e portas fechadas. Sonhei?
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora – luciahelena@comerciodafranca.com.br
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