Aniversário da vovó


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Aniversário é adjetivo ou substantivo, não sabia disso. Machado, o grande senhor das letras, escreve: “...o pequeno vaso de porcelana, que estava em cima de um móvel junto com outros presentinhos aniversários” — página 18, do Memorial de Aires. Nesse sentido, portanto, é adjetivo relativo — ou próprio dele, ou que nele se realiza — ao dia em que faz um ano, ou mais, que se deu certo acontecimento. Acho meio esquisito, mas quem sou eu diante do escritor que usou e homologou a palavra presidenta, muito antes de Dilma? Aniversário também pode ser substantivo, bem comum: o dia aniversário de acontecimento ou de alguém, dia de anos, natalício, aniversário natalício, festa comemorativa de aniversário. Dois sentidos e batalhão que os adora e legião que os odeia. Pertenço ao primeiro grupo. Acho que o dia de aniversário deveria ser feriado mundial: é o dia que marca o início da nossa existência, e toda existência é importante. Deveríamos comemorar a trajetória dentro do percurso, valorizar as experiências adquiridas, 
vitórias alcançadas, a superação de toda grande ou pequena adversidade, fazer balanço das transformações, reavaliar as situações. E mudar. Depois da análise, mudar — vai que seja para melhor? 
 
Essa semana marcou o fim de mais um ano desde o meu distante nascimento. Sem mamãe para telefonar às seis da manhã — ela sempre era a primeira — por coincidência maravilhosa, tinha quatro — dos cinco netos — em casa para me tirar da cama com barulho, algazarra, gritos e farra. “Quantos anos você está fazendo?” Perguntaram. “Duzentos e um!” Respondi. Dia alegre. Amigos, conhecidos se manifestaram, emocionei-me bastante. As quatro meninas estiveram misteriosas o dia todo: conversinhas, risinhos, cochichos. Percebi que combinavam alguma coisa em segredo. A mais nova de cinco e a mais velha de doze não participaram muito do complô. As duas de oito foram as mentoras, autoras e executoras do projeto que exigiu o dia todo delas... e de mim. Vó, precisamos de cola quente. Vó, me leva à papelaria? Vó, você tem fotografia sua para me dar? Vó, cadê a tesoura? Vó, vamos ao seu escritório? Vó, cadê isso, vó cadê aquilo: dia de requisições variadas. Sabia que havia um projeto em andamento, qual, nem desconfiava. Combinei levá-las para jantar: as três maiores e eu. Convidei os pais delas, meus filhos. O avô tinha compromisso. Pouquinho antes de sair, elas questionaram, batendo a ponta do dedo indicador delas no meu peito, acentuando o ritmo de cada sílaba da acusação: “Vo-cê não dis-se que era jan-tar se-u e das su-as ne-tas? Em-tão. Fi-lho é fi-lho, não é ne-ta!” Desconvidei os pais, embora não saiba como encarariam o desconvite ao ausente e queridíssimo tio Du.
 
Antes de sair, achei dois bilhetes recortados em formato de coração: “Feliz Aniversário, vovó!” em um. “Nós amamos você!”, no outro. Assinados: Cl@ar@ e N@nd@. Ao entrar no carro, outro bilhete escrito por elas, sobre o banco do motorista alertava: “No restaurante você terá uma surpresa!”. Na chegada ao restaurante que escolheram, pediram para eu entrar, que haviam esquecido algo. Escondiam algo nas mãos para trás. Entregaram-me pacote e duas rosas brancas surrupiadas do buquê recebido à tarde. Abri. Encontrei porta-retratos de papel — duas folhas grudadas. Fotos minhas,  em diversas situações, que lhes dera à tarde. Florzinhas de biscuit, surrupiadas do escritório, decorando. Acabamento: fio de barbante. No centro, poema impresso em papel branco, autoria delas: “Vó, eu adoro seus perfumes fortes, seu batom vermelho, seus vestidos longos e seu medo de lagartixa. Se um dia você aparecer com perfume fraco, batom rosa, com vestido curto e sem medo de lagartixa não vou lhe reconhecer. Te amo, vovó.” Linda comemoração, presente maravilhoso! 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora – luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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