Como pode?


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“Todos nós nascemos loucos. 
Alguns permanecem”

Samuel Beckett, escritor irlandês
 
Uma mulher procura a polícia num sábado para registrar queixa de estupro. Aos 43 anos, casada há 27 e sem filhos, mantém boa forma física e aparência. Enfurecida, diz aos policiais que há quatro meses é violentada pelo próprio amante. Quer vê-lo preso. A versão é encarada com grande reserva.
 
Seis dias depois, a mulher decide procurar a DDM para insistir na queixa de estupro. No caminho, ouve “vozes” e muda de ideia. Resolve se vingar. Compra uma faca, pede que seja bem amolada, e parte rumo à casa do amante. No local, não encontra ninguém. Pula um primeiro portão, força a abertura de um outro. Numa casa de fundos no mesmo terreno, bate à procura de alguém que, em sua imaginação, seria uma senhora que participou de um “ritual”, dias antes, quando o amante a “torturara” para “expulsar o demônio” em companhia de “crentes”. 
 
Aos 69 anos, a senhora pressente o perigo e tenta evitar a “visita”. Por uma pequena fresta, a mulher enfia o braço e consegue, então, forçar a entrada e atira a idosa ao chão. “Socorro, Jesus! Me acode”, suplica a vítima. A resposta é sádica. “Cadê Jesus agora, minha ‘fia’? Cadê sua fé agora? (...) Vai te salvar?”, esbraveja. Ouve mais “vozes”. “Mata ela”. A lâmina da faca percorre o pescoço da vítima da esquerda para direita. O sangue jorra. A vítima grita. Seguem-se outros golpes. A “ordem” é cumprida.
 
A agora assassina revira objetos para simular roubo. Antes de sair, pega o celular. “Morto não precisa”, pensa consigo. Ruma para a sua própria casa. Dois dias depois, num domingo, vai com o marido passear em Delfinópolis. Dá de presente a ele o celular roubado. Diz que o “achou”. Mais tarde, conta que matou uma mulher. Ele não acredita.
 
A Polícia, com base nos depoimentos do amante, chega à casa da assassina. Diante do celular da vítima que estava com o marido, não há mais dúvidas. Presa, confessa o crime. 
 
O amante nega qualquer violência. Conta que conheceu a mulher num forró. Ao saber que ela era casada, decide se afastar. A mulher reage mal e passa a ameaçá-lo. É numa dessas investidas que ele pede ajuda a alguns amigos para acalmá-la. O que ela entendera como “ritual” não passara de algumas pessoas tentando apaziguá-la com oração. 
 
O marido da assassina admite que sabia do amante. Garante que não se importa e que há anos dorme no sofá da sala. A vítima, que morava sozinha, nada tinha a ver com qualquer parte desta história. A assassina imaginou que ela fosse a mulher de um pastor que participou do ritual/oração. Não era. Morreu estupidamente.
 
Por mais inversossímil, absurdo, abjeto, tosco, brutal ou insano que isso pareça, os eventos narrados acima aconteceram entre os dias 1º e 9 de março, aqui em Franca. Paloma Bastos, 43 anos, é a assassina. Ana Macedo, 69 anos, sua vítima. Eurípedes Bueno, 55, vendedor, o marido traído. E Eliseu da Silva, 44 anos, sapateiro, o amante e pivô involuntário deste show de horrores.
 
Assustadoramente, Paloma é uma mulher absolutamente comum. Sua ficha na polícia é mais do que limpa. Nunca se envolveu em qualquer confusão. Jamais foi presa. Não fez Boletim de Ocorrência nem para reportar perda de documento. Aposentou-se por invalidez porque, vítima de cardiopatia, teve que colocar um marca-passo. Era uma vida pacata, modesta, sem cumes ou abismos. Pelo menos, até a semana passada.
 
A filósofa alemã Hannah Arendt escreveu uma obra fundamental para tentar compreender eventos desta natureza. Seu livro Eichmann em Jerusalém - um retrato sobre a banalidade do mal, é a compilação de cinco artigos sobre o julgamento de Adolf Eichmann, nos anos 60. Para quem não associou o nome à pessoa, Eichmann foi o sujeito a quem Hitler delegou a missão de cuidar da “Solução Final”, o plano de extermínio de milhões de judeus em câmaras de gás, pelotões de fuzilamento e fornos crematórios, durante a Segunda Guerra Mundial. 
 
Diferente do que poderia se supor, Eichmann não era demoníaco. Não tinha nenhum desvio de comportamento significativo. Não era louco, não carregava nenhum distúrbio. Ele era um burocrata, um cumpridor de ordens que acreditava que matar os judeus era o certo a fazer. E assim fez, sem dramas de consciência ou qualquer arrependimento, ainda que suas vítimas não fossem culpadas de crime algum. Morreram por terem nascido judias. É o mal em sua mais absoluta banalidade, como definiu Arendt.
 
Se não há comparação possível na dimensão dos crimes praticados por Eichmann e Paloma Bastos, o mesmo não se pode dizer de sua gênese. Há um elemento intrínseco ao ser humano, latente, capaz de transformar a mais insuspeita pessoa num assassino frio e cruel. Só depende das circunstâncias  - e da oportunidade. 
 
Enfrentar as nossas angústias e medos, encontrar coragem para lidar com os desafios que a vida impõe, levantar-se depois de cada tombo, manter-se ativo e produtivo e exercitar a tolerância são comportamentos que ajudam a manter a sanidade mental. Não há muito mais a fazer. Antídoto efetivo para a fuga destes monstros internos capazes de perpetrar tamanhas atrocidades é remédio que a neurologia, a psiquiatria, a psicologia ou mesmo as religiões simplesmente não podem oferecer. Crimes como o cometido por Paloma Bastos - ou Adolf Eichmann - são uma evidência bastante sólida desta premissa. Infelizmente.
 
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN 
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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