Desapego


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Objetos de casa, enfeites, heranças, roupas, sapatos, penduricalhos, discos, fotografias e álbuns cheios delas, filmes, livros, eletro-domésticos, cacarecos, móveis, enxoval quase intacto — do tempo que usava casar e a noiva levar roupas de cama, mesa e banho para uso do casal e de quem mais viesse da união. Põe o dedo aqui, quem não os possui guardados, quase sem uso e arquivados em caixas, baús e armários. 
 
Muda e embasbacada ouvi as primeiras referências ao caminho de Santiago de Compostela, antes que Paulo Coelho o popularizasse: iniciava conhecimentos sobre desapego, sem me dar conta. Peregrinos informavam aos interessados em empreendê-la, que deveriam levar apenas aquilo que pudessem carregar durante o percurso árduo, especial para pessoas determinadas, com excelente preparo físico para enfrentar a caminhada de muitos — centenas ou milhares — de quilômetros. Pensei: o que eu teria na mochila às costas? Vários kits. O de higiene: a imprescindível lixa de unhas, sabonete, desodorante, pasta, escova, xampu, condicionador, protetor solar, hidratante. O de sobrevivência: esparadrapo, gaze, remédio para a coluna, analgésicos e hipotérmicos, hipotensores, lentes de contato, colírio. Kit beleza: meu batom vermelho. E o de viagem: garrafa para água, carteirinha com documentos, cartão de crédito, passaporte, alguns trocados, caderno com fotos dos netos, canetas para anotações, Ipod. Fosse hoje, incluiria celular com gravador e a bengala de mamãe, para sorte e suporte. Roupas? Calça, bermuda e short (embora ache horrível mulher entre os quarenta e cem anos com shortinho), três camisetas, moletom e guarda-chuva. Roupa de dormir, meias, sandália havaiana, peças íntimas. Claro, sabão líquido para lavar as peças à noite e reusá-las pela manhã. Deixaria para trás, tanta coisa! Quanto pesaria tudo isso junto? Três, quatro quilos? Estalo: precisaria muito pouco para viver e com estes quatro quilos, poderia empreender qualquer viagem para qualquer lugar.
 
Bem, entendi o sentido de desapego, nunca fiz a viagem de peregrinação e fui criada com a orientação: ‘quem guarda o que não presta, tem o que precisa’. Adivinha? Tenho guardadas e armazenadas bolsas que não uso, vestidos que não me servem, sapatos que me apertam, outros que nem sei como ficava em cima deles. Bijuterias lindas jamais usadas, metros de tecidos que não sei onde colocar, lápis e canetas secas. Tenho casacos para o frio que nunca acontecerá, blusas que não fecham. Blusas? Guardei a de cambraia azul de vovó e as de seda de mamãe, ainda com o perfume dela. Aparelho de barbear de vovô na caixinha de aço, com gilete BlueBlade dentro. Tenho mobílias antigas das avós. Rendas, passamanarias, sutaches, caixas com linhas de bordar — coisa que nunca mais fiz, infelizmente. 
 
Entendi o significado de desapego, tentei praticá-lo, mas esbarrei em empecilhos criados por lembranças e recordações que, de certa forma, me escravizam, aprisionam ou tolhem. Como me desfazer daqueles vestidos lindos, com os quais fui aos casamentos dos filhos? Onde e quem usaria os casacos mais apropriados às temperaturas dos polos? Caixinhas de maquiagens novinhas, de marcas famosas, com cores dos anos 70 e 80: quem as quereria? E as bijuterias que se quebraram há muito e que esperam por conserto? Caixas cheias de cacarecos — telegramas, cartões do meu casamento, Natais passados, bilhetes das crianças: a quem interessariam? Aros de óculos escuros antigos! A lista da contabilidade é imensa.
 
Precisarei de algum preparo físico e muito de emocional para promover o desfazer dessas evidências de grandes momentos que desaparecerão do meu entorno quando eu as descartar, e que se tornarão, pouco a pouco, tênues chispas do meu passado ou meras lembranças que apenas interessaram a mim e apenas enquanto eu possa viver. 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

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