Onde está o líder?


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“Um dos testes de liderança é reconhecer um problema antes que ele se torne uma emergência”

Arnold Glasgow, empresário americano
 
 
Prefeito nenhum é super-herói. Não tem superpoderes. Junto com o cargo, não ganha de presente bat-cinto de utilidades, capa que faz voar, visão de raio-x, capacidades premonitórias nem força descomunal. Era um ser humano com virtudes e limitações antes da eleição. Continua a ser, depois de investido no cargo. O que muda é a responsabilidade que pesa sobre os seus ombros depois que recebe uma delegação de poder para, por prazo determinado, servir ao povo, submetido à lei. É nobre e difícil. 
 
Ninguém espera que prefeito algum tenha como resolver todos os dramas que afligem a população. É óbvio que existem limitações - orçamentárias, legais, temporais - que nenhuma pessoa, em sã consciência, ignora. Para alguns desafios, como a Educação, onde o tempo para melhora efetiva costuma transcender os mandatos, o prefeito da vez tem que se contentar em fazer o melhor possível no tempo disponível. 
 
Qualquer pessoa com seu juízo normal também não imagina que o prefeito, independente de quem seja, tenha como evitar problemas graves ou, até mesmo, tragédias. Salvo Deus, o Cosmos ou qualquer nome que se dê a esta força superior, não há indíviduo ou entidade com tamanha força.
 
O que se imagina, se espera, se deseja e se exige é que, diante de um problema, de uma crise, de uma calamidade, o prefeito se posicione. É essa a sua grande responsabilidade. Aquele que lidera precisa dizer aos seus seguidores porque determinada circunstância é ruim, o que está sendo feito para sanar o problema, quem foi o responsável por aquele estado de coisas, as medidas adotadas para que isso não se repita... E, na sequência, inspirar todos a seguir o caminho que decidiu trilhar para superar a adversidade, compartilhando a visão de futuro que tem e para onde tudo isso conduz. É simples, o que não quer dizer que seja fácil de fazer. Mas, sem isso, não há caminhada, solução, nem coisa nenhuma.
 
Em Franca, vivemos um inusitado vácuo de poder. Treze meses após Alexandre Ferreira (PSDB) ser empossado prefeito, a cidade experimenta uma crise de autoridade poucas vezes vista na sua história. A impressão que se tem é que não há ninguém no comando. Isolado, sozinho, taciturno e, muitas vezes, transmitindo à população a impressão de que está alienado da realidade, o prefeito faz um governo quase esquizofrênico. 
 
Orgulhoso de sua autodeterminação, Alexandre tem confundido persistência, sempre elogiável, com teimosia, característica que em doses elevadas resulta em inoperância. Identifica todos que pensam diferente como inimigos, ignora que alianças são fundamentais em política, descumpre acordos assumidos com sua base aliada na Câmara e insiste em seguir um caminho predefinido qualquer, independente do que esteja acontecendo ao seu redor, indiferente à gravidade dos problemas que se multiplicam, alheio às opinIões de seus secretários e assessores mais próximos. Na lógica alexandrina, divergência é pecado mortal e diálogo, coisa de quem quer perder tempo. Maiores erros não poderiam ser cometidos por qualquer líder.
 
A crise na Saúde é emblemática de quão dissociado da realidade está o governo. Desde novembro, quatro mulheres morreram em circunstâncias suspeitas depois de passarem por múltiplos atendimentos no PS “Dr. Álvaro Azzuz”. As histórias de Kelly, que operou a vesícula; Luara, que tinha infecção urinária; Clésia, que procurou ajuda com mal-estar; e Francisca, vítima de um infarto meia-hora depois de receber alta, comoveram a cidade. Na última semana, denúncias, feitas pelo Diretor da Divisão de Prontos-Socorros, Ricardo Verissimo Jr, que ocupa função comissionada (e portanto, de confiança do prefeito), e subscrita por 28 médicos, enfermeiros e técnicos, de que há baratas, ratos, pombos, aranhas, escorpiões, gambás, cães e gatos infestando o PS Infantil, acompanhada do pedido para que fosse feita a “interdição sanitária” imediata do local, chocaram a cidade e repercutiram em todo o Brasil a partir de reportagem publicada pelo Comércio.
 
Diante disso tudo, o que fez o líder da cidade? Nada. Pode parecer absurdo, mas nenhuma palavra foi dita por Alexandre Ferreira sobre as mortes ou as denúncias de infestação. Quanto falou sobre saúde, foi para enaltecer os números “gigantescos” do setor ou para elogiar reformas que “garantem” atendimento mais “humanizado”. Nem mesmo depois do choro da secretária de Saúde, Rosane Moscardini, que durante visita à Câmara, na última quinta-feira, emocionou-se diante das famílias das vítimas e admitiu que há “problemas graves” na área que comanda, Alexandre reagiu. Continua impassível. Não afastou nem demitiu ninguém, não enviou qualquer projeto à Câmara solicitando autorização para mudar o PS Infantil de lugar, não pediu desculpas às famílias, não disse que medidas vai tomar para evitar novas mortes. Nada. 
 
Em 1987, o ilustrador britânico Martin Handford publicou o livro Onde Está Wally?, divertida compilação de desenhos que desafiava o leitor a encontrar o personagem que dá nome ao título. Wally estava sempre camuflado nos mais diversos cenários e quem o encontrasse primeiro ganhava a brincadeira. Vinte e sete anos depois, a tarefa nada divertida aqui em Franca é encontrar o líder da cidade. Quem primeiro topar com Alexandre Ferreira deve avisá-lo de que muita coisa precisa ser feita. Serenamente, sem ódios, e com os dois pés na realidade. Legitimidade para isso ele tem. Resta saber se ainda tem vontade. Por que, hoje, Franca tem um prefeito. Mas, nem de longe, tem um líder.
 
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN 
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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