Frevos e toadas


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Jovem amigo me sabatinou: ‘você era comunista?’. Não, não era. Nunca fui. Nunca entendi essa história de divisão de bens. Nem a antiga prática de tirar dos ricos para dar aos pobres, nem agora, quando me cobram responsabilidade para com as classes menos favorecidas diante da quantia absurda de impostos que pago e vejo escorrer pelo ralo para favorecer uma minoria: políticos que roubam, escondem no estrangeiro e batem em minha porta e na do meu coração, pedindo para o povo. Fora contribuir com construção desnecessárias de estádios, festas de auto-promoção, jantares e vinhos em restaurantes de luxo. 
 
Vi a riqueza de muitos vir por herança: ancestrais que trabalharam duro ou pouparam; de empresários que promoveram o crescimento de funcionários — Franca é exemplo disso: grande número de atuais calçadistas são egressos do chão de fábrica. Lembro-me, até, de patrões incentivarem escolaridade dos operários, dispensando-os mais cedo, pagando mensalidades. 
 
A bem da verdade, meu ideal era que todos tivessem oportunidades: de ter casa própria, frequentar escolas, clubes decentes para o lazer, viagens, boa alimentação, acesso a eletrodomésticos mas - aqui está a diferença — sem troca, sem escambo. ‘Você vota em mim, perpetuo meu poder, eu te dou tudo isso.’ 
 
Se há igualdade no consumo, há profunda desigualdade e desumanidade em dois setores que deveriam sustentar aquele crescimento econômico e a aquisição de benesses: saúde e educação. Ou educação e saúde. Ou os dois simultaneamente. Televisão, geladeira, tabletes, computadores, máquinas de lavar — bens de consumo, que hoje o povo compra facilmente com cartões de crédito, deverão um dia serem pagos ao patrocinador. Se o povo não tiver dinheiro, paga com voto? Esse é meu medo. Então, confirmo, sonhava com todas aquelas oportunidades e, sobretudo com saúde e educação. Que frustração!
 
Fã de Luiz Gonzaga, ouvia Vozes da Seca com contrição e respeito, ainda hoje hino ao respeito e dignidade: ‘Seu doutô os nordestino têm muita gratidão pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão. Mas doutô uma esmola a um homem qui é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão. É por isso que pidimo proteção a vosmicê, home pur nóis escuído para as rédias do pudê. Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê. Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê. Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage, dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage. Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage. Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão. Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão. Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos.’ 
 
Nem todos os nordestinos veem com bons olhos algumas medidas sociais do governo, pelo que diz o Fome Zero, frevo proibido em Recife neste carnaval: ‘Chega de trabalho, basta de tanto ‘lero-lero’, não vou mais encher minhas mãos de calo, vou viver da bolsa do ‘Fome Zero’. Minha mulher está muito feliz, já pediu dispensa do trabalho, não quer mais ser uma faxineira, pra viver dessa bolsa brasileira. Por isso, eu canto ‘Obrigado Presidente!’ por o senhor ter estendido a mão, distribuindo esmola via cartão, retribuindo pela sua reeleição. Este é o país que vai pra frente, com essa massa ociosa e contente vivendo na ociosidade, diz ainda que isso é brasilidade. Por isso, eu canto ‘Obrigado Presidente!’ por o senhor ter estendido a mão, distribuindo esmola via cartão, contrariando o nosso ‘Rei do Baião’.’ 
 
Adivinha quem censurou? (A letra é essa que trasncrevo. Caso queira aprender também a melodia, é simples. Basta acessar o link http://mais.uol.com.br/view /e8h4xmy8lnu8/pt-censura-musica-no-carnaval-de-recife-04029B3468C8C13326?types=A). 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 

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