Marina


| Tempo de leitura: 3 min
Entusiasmados com novíssima e moderna aparelhagem do estúdio de gravação recém-inaugurado, os rapazes aceitaram o trabalho de produzir CD de intérprete francana, cujos sobrinhos desejavam homenagear e perpetuar as obras da tia pianista e compositora. Disse o rapaz que os procurou que, certo dia não muito distante, vira a tia sentar-se ao piano numa grande loja, como que isolar-se do mundo e executar doces e melodiosas músicas de sua autoria, como se estivesse absolutamente sozinha. Contou que as pessoas foram se juntando em torno dela, absorta, perdida em lembranças e pensamentos. Nessa hora, decidiu que eternizaria a parente e suas obras através da gravação. Procurou os profissionais, combinou o trabalho. Eu faria a parte gráfica do encarte e ajudaria na promoção do CD. Ouvi as músicas já gravadas, fiquei entusiasmada: elas me transportaram para mundo doce e romântico. E batizei o CD: Serenidade. Aceito o título, tudo o mais seguiu a mesma linha. Seda brilhante, botão de flor - tudo em rosa, para a capa. O texto de apresentação deveria combinar com as melodias, impregnadas de lirismo. 
 
Todos os dias os rapazes contavam alguma novidade da compositora prestes a alcançar oito décadas de vida: praticamente a idade das avós deles. Transferiram para a compositora o carinho que sempre tiveram com suas ancestrais. Decidiram: colocariam entre uma ou outra música, trechos de conversa espontânea, gravada às escondidas. ‘Você fica perto do gravador com ela, a gente posiciona o microfone. Você pergunta, bate papo, cutuca, depois a gente faz a edição. Topa?’ Topo. E assim fizemos. Nada indiscreto, e quando se sentiu à vontade falou de namorados, pretendentes, paixões, viagens, encontros, desencontros, Argentina, Poços de Caldas, desentendimentos, orgulho da família Sandoval, amor. 
 
Solteira, teve paixão correspondida, não se casou com ele, nunca mais amou, nem se casou com outro. Tinha enxoval completo, sem uso. Não, não tinha mais intenção de se casar, mas quem adivinha o futuro? Se ele - aquele - voltar? Ah! Nem quero imaginar... Seus olhos brilhavam. Guardou essa esperança secreta até o fim, creio, embora nunca mais tenha tocado no assunto enquanto convivemos. 
 
Na época do lançamento conseguimos piano de cauda, enfeitamos o espaço, foi um luxo só. Emocionadíssima, ela se sentia no Carnegie Hall. Nos dias anteriores me chamava toda hora: queria opinião sobre o vestido; queria saber se o colar de pérolas combinava; se eu podia levar seu sapato no sapateiro tal na rua tal para arrumar — só ele saberia fazer o reparo; se ela podia tomar chá de maracujá para se acalmar. E se ela esquecesse as músicas na hora por causa do nervosismo? Faço penteado diferente? Maquiagem? E se ninguém for? Meu Deus! A colunista Patrícia disse que vai? 
 
Certeza, ela não teve baile de debutantes: emoções amontoadas e guardadas explodiram no dia do lançamento do CD. Levitava. O CD, que ficou muito bonito, viraria trilha sonora para minha neta treinar seus passos de aprendiz de balé. 
 
Continuamos amigas. Ela me convidava para os aniversários, telefonava para me cumprimentar nos meus, guardava presentes de Natal para meus netos. 
 
Soube que eu gostava de jabuticaba, na época das frutas me chamava para saboreá-las na cozinha de sua casa. Um privilégio. E todo ano me dava garrafa de licor, feito das frutinhas pretas. A última vez que nos encontramos tive dificuldade para entrar na casa: estava trancada, foi difícil ouvir campainha ou as batidas no portão. 
 
Conversamos algum tempo, embora a sentisse sem a vivacidade dos encontros anteriores. Falou do plano de morar em apartamento, desconfiou da capacidade de conseguir. Não voltei mais lá. Soube de sua partida depois, quando não mais podia enviar-lhe rosas cor-de-rosa de verdade, como as que lhe dava nos aniversários e usei para enfeitar o estojo do seu CD. 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários