Olho-me no espelho e me vejo paladina de causas nobres e elevadas; batalhadora de idéias; guerreira de sublimes ideais. Quando o pano da vaidade cai, penso melhor e concluo que sou é encrenqueira mesmo. E, sem condescendência, concluo que espelhos mentem demais. Veja só. Dia desses, sentada em mesa de almoço com pessoas gentis e educadas, escuto fiapo de conversa distante, do outro lado da sala. Peguei só o fim da frase: ‘...professores que ganham pouco, mas que recebem justo salário pelo trabalho que executam.’ Fiquei uma arara.
Lembrei-me dos meus professores e comentei meio ríspida que há muito tempo professores constituíam classe sagrada; que seus salários eram equivalentes aos de magistrados; que nas solenidades públicas ou sociais o Delegado de Ensino era chamado para o palanque ou mesa de honra, autoridade do nível de prefeito, bispo, vereadores, deputados, delegados de polícia, dos próprios promotores e juízes. Alunos se levantavam quando os professores entravam em sala de aula. Eram tratados com respeito e nós, alunos, tínhamos vergonha se eles nos chamassem a atenção por algum motivo. Jamais ousaríamos ir às aulas com minissaia ou short e nos sentarmos à frente deles com pernas abertas, sem qualquer resquício de pudor ou vergonha. Imagino a vermelhidão da minha cara se eu tivesse celular naquela época, se ele tocasse, eu atendesse e o professor me pedisse para desligá-lo. Eu ia torrar de tanto calor. Na verdade defendia a classe dos meus professores e aquela à qual pertenci até algum tempo. Esqueci-me que os tempos mudaram e, com eles, os professores, e principalmente os alunos.
Nem me lembrei que alunos não podem ser apontados, referidos ou, como dizem, discriminados: nem quando entram nas ou saem das salas sem pedir licença, afrontam os educadores que lhes cobram tarefa, ou saem da sala sem autorização e conversam entre eles assunto fora do conteúdo programático. Esqueci-me. Cabeça mole, a minha. Escapou-me que expressões e intentos como desculpa, por favor, com licença, muito obrigado são quase desconhecidos pela maioria daqueles que freqüentam escolas. Os pais justificam: estão ocupados, deixam essas quirelas para os professores, que não conseguem impor limites, mesmo porque isso tem que ser educação do lar. Não conseguem ensinar e alunos não suportam ser contrariados. É imbróglio maior que o da Petrobras. Ou da doação do dinheiro brasileiro para a construção do porto em Cuba.
Perdi a amizade de querido e antigo amigo. Estupidamente. Um lapso e esqueci que política, religião e cor a gente nunca discute. Comentava que o Zé Dirceu — o íntegro e reconhecidamente estimado cidadão brasileiro — é homem feliz: doravante cantará diuturnamente a música do Roberto Carlos, aquela do desejo de ter um milhão de amigos. É provável que, embora pudesse querer, jamais imaginou alcançar tal cifra. Pois quando precisou arrecadar o valor da multa (injusta) que pagará em breve, percebeu que sim, tem um milhão de desprendidos e abnegados amigos: é só ver o montante das doações recebidas. Meu particular amigo se ofendeu, achou que eu atacava seu ídolo. Deletou-me do mailing, apagou meu telefone e não conversa mais comigo. Conhecesse a opinião do Lobão antes, isso não teria acontecido: ‘Discutir com petista é como jogar xadrez com pombo: ele vai derrubar as pedras, vai c*g*ar no tabuleiro e ainda vai sair com o peito estufado, como se tivesse ganho a partida’. Burrice a minha. Admito.
Ficarei atenta. Assuntos como importação de médicos; possibilidade de fiasco da próxima Copa; superfaturamento e inadequação da escolha dos locais das construções dos estádios de futebol; medo da violência, insegurança das ruas e trânsito; a pouca vergonha da alta dos preços das diárias dos hotéis para a época da Copa estão banidos da minha pauta.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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