Certa melancolia me invade quando chega o Outono. Sinto que encontrarei o Sol mais vivo e brilhante pela manhã e que a tonalidade das cores das flores, o verde das árvores exibirão intensidade diferente daquela do Verão: perdem na exuberância, ganham na padronização. Sinto na pele ventinho mais frio ainda que esteja quente e que os termômetros não tenham caído de forma visível. Não me lembro dessa percepção sazonal em outras épocas da minha vida. Nem de ter me permitido sentir modificações exteriores, preocupada com a supervalorização de acontecimentos internos. Creio que me considerava o centro do universo. O tempo passou, perdi essa onipotência, percebo-me ínfima parte do mundo e me vejo apenas como centro de mim mesma, o que não deixa de ter certa relevância e importância, acredito. Nessa fase de me permitir relativizar tudo, acho que começo a ficar madura, adulta, de verdade.
Relembro coisas, cenas e fatos importantes, sim — tanto que ficaram no inconsciente — guardados, armazenados, escondidos, dados como perdidos. Não queria ou não podia trazê-los à consciência? Afinal, reconhecer a importância dessas cenas, coisas e fatos significa dar-lhes valor e modificar a conduta a partir do reconhecimento. E, admitindo-o, ser grato. E alguém lá consegue agradecer quando está em processo de crescimento?
O fator desencadeador dessas lembranças surgiu de forma inesperada e, como anteriormente, sem sentido. Soube que a sobrinha querida manifestou o desejo de ter penteadeira. Imaginei-a querendo se sentar na frente do espelho, pentear os cabelos, ver-se refletida, acho que para gostar de si mesma. Fiquei com certa inveja. Na minha idade é atrevimento pretender olhar no espelho: de repente posso não gostar do que verei. Na idade dela, tudo é permitido, até encarar naturalmente tal possibilidade. Desejo dela para mim é ordem. Qual penteadeira? Lembrei-me da minha penteadeira de menina-moça, pura, casta e inocente.
Onde morávamos havia casas mais ricas, nenhuma mais bonita que a nossa. Família simples, mamãe poço de préstimos e criatividade, nossa casa comum, planta popular, sabe Deus o sacrifício para construí-la! Janelas com venezianas, jardim, vasos no alpendre — latas de vinte litros pintadas de verde — lindas samambaias. Nas janelas, cortinas feitas pela mãe, com estruturas de madeira, feitas pelo pai. Nas salas, pano fininho, na copa e cozinha, xadrezinhas. Como na canção, felicidade era ‘casinha pequeninha, com gerânios em flor na janela, rede de malha branquinha e família a sonhar dentro dela.’ O quarto, que dividia com a irmã, tinha caminhas iguais, colchas artesanais combinando com o que cortinava a estrutura de madeira, design de armário. E a penteadeira! Prancha de madeira retangular, quatro pés. Sobre o tampo, a esconder o tosco da tábua, espelho. Revestindo as laterais, ‘saia’ bem franzida e longa, de pano levinho. Na frente, finalizando, imenso laço. Pendurado, na parede, espelho arrematado por babadinho do mesmo tecido da ‘saia’. Naquele espelho eu me olhava sem medo ou culpa de nada! A vida seguiu: pudemos comprar outras penteadeiras, vieram outros espelhos, outras imagens. Sucederam-se Primaveras, Verões. Chegou novo Outono, a melancolia se instalou, a sobrinhazinha quer a penteadeira e eu tirei o pó dessas lembranças.
Decidi construir réplica da tal penteadeira para a menininha. Oportunidade de balanço emocional, muitas comprovações. Muitas. Que a influência materna é maior do que admitimos e suportamos aceitar. Que o desejo de reprodução de ícones da vida revela satisfação pessoal com relação ao passado. Que a alegria está em coisas simples. Que ser feliz é, de certa forma, saber usar criatividade e ter bom jogo de cintura. E que o amor produz milagres: lá vou eu para a máquina de costura. Adoro o Outono. (Releitura de texto escrito e publicado em março de 1999.)
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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