Tempos chatos, esses politicamente corretos! Saudades de quando era brincadeira aceita e decente colocar apelidos nos amigos. Não os que feriam suscetibilidades ou fossem deselegantes e desumanos, como as referências a defeitos físicos, disfunções ou peculiaridades que a pessoa não escolhe. Havia outros, porém, muito engraçados.
Meu pai era conhecido por um, que o acompanhou a vida toda. Jovem, aprendia profissão com o pai barbeiro cujo salão, no centro da cidade, era local eleito pelos criadores de gado dos arredores para deixarem cedinho os latões de leite, mais tarde recolhidos pelos distribuidores. Ele os abria escondido e usava caneca para retirar dali o precioso líquido. O volume, igualava com água. Ia muito cedo para o trabalho, tinha fome típica da idade. Mas podia ser molecagem mesmo, o que é mais provável. Quando alguém descobriu, natural que lhe pespegassem a alcunha: Bezerro. Anos depois, nasceu-lhe o filho caçula, seu companheiro que, distante da história do leite, ainda assim herdou o diminutivo do apelido paterno: Bezerrinho. Bezerrão virou bancário. Dizem, na instituição era mestre no assunto. Colega magrinho e agitado era visto aqui, em seguida ali e por toda parte: Perereca. Outro, paciencioso, tranqüilo, de fala lenta e cadenciada, mineiro: Biscoito. Um dos chefes, sempre de bigode aparado, cerimonioso, empertigado, cabelos no lugar: Coronel. Outro chefe, bonitão, de presença marcante, vaidoso, elegante: Boi. Nenhum pejorativo, absolutamente precisos. Era arte.
Apelidos estão ligados a cenas do cotidiano. Conta-se a história daquele sujeito que não admitia ter apelido, na cidade pequena onde todos eram conhecidos por algum. Decidido a não dar motivos, não freqüentava bares, restaurantes, não ia nem à missa, saía do hotel direto para o trabalho. Suas raras aparições eram na janela do quarto, de onde olhava as horas no relógio da Igreja, bem em frente. Exultante, encontrou o sujeito que o advertira. ‘Viu? disse-lhe. Não dei motivos, não tenho apelido!’. Levou susto: ‘Tem sim, doutor. Como o senhor sempre olha pela janela em horas certas, o pessoal lá em baixo já o chama de Cuco!’
Cidade portuária do sul brasileiro possui folclore riquíssimo no quesito apelidos. Contam que alto funcionário do porto explicava ao comandante do navio estrangeiro, seu conhecido, como adquirira doença alérgica por picada de inseto. Ressalte-se que ele não falava nem bom dia em inglês, mas tinha mãos, fundamentais na mímica. ‘Veio uma abelha, zuuumm - juntou os dedos e simulou o vôo e tum! me picou’ - completou com as pontas dos dedos batendo forte em seu próprio rosto. Ficou conhecido na cidade - e pelos oficiais que retornam sempre - como ZumTum. Contam que o mesmo ZumTum, depois de ter sido atacado por cães, deu antológica explicação sobre a perna enfaixada aos oficiais estrangeiros: ‘The dog nhóc nhóc my perneichón’.
Do rico manancial sulista, outras duas lendas particularmente engraçadas. A do Nabóia. Estava o rapaz na lancha, em passeio pelo oceano, quando acometeu-lhe súbita e incontrolável diarréia. Sem banheiro disponível, percebeu estar próximo da bóia de demarcação da baía. Ali mesmo resolveu o problema. O apelido era mais longo, mais bandeiroso: fazia referência ao ato em si e o local do alívio. Sofreu supressão do verbo, para se tornar mais aplicável, socialmente falando. A outra lenda: o marido estava no bar, jogava sinuca, quando foi avisado que a esposa o procurava, que estava furiosa e mais, que vinha de carro, naquela direção. Escondeu-se atrás da geladeira, mas ela viu a manobra, desceu do veículo, e muito brava deu a bronca, presenciada por todos: ‘Sai daí, palhaço, que eu já te vi!’. Desenxavido, ele saiu e foi embora com ela. Quando voltou foi chamado Paiaço, alcunha pela qual até hoje é conhecido. Agora me diz: qual o problema desses apelidos?
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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