Janeiro me deixa apreensiva. Janeiro me lembra coisas ruins. Alivia-me constatar que já terminou. Num, bem distante, fiquei hospitalizada três semanas, uma delas entre a vida e a morte; noutro, mais ou menos recente diagnosticaram-me doença grave que já matou muita gente — aquela que se evitava pronunciar o nome e eufemisticamente era chamada de ‘aquilo’. Alguns anos, no 24, minha mãe partiu e quem já passou por isso, sabe: perder a mãe nos deixa órfãos, tão órfãos como se tivéssemos cinco anos, e perdidos, em algum lugar entre a saudade, a dor e a revolta. Fora tudo isso, o calor. Odeio calor. Não gosto do cheiro que impregna coisas e casas, não gosto de ficar suada, não gosto de acordar me sentindo prematuramente no inferno. Para que passe rápido, aproveito o mês para organizar minha vida. Sabe como é. Arrumar o exterior — gavetas e armários — ajuda a botar ordem na vida interior. Funciona, sim. A prática traz surpresas até agradáveis — daí não rejeitar completamente os primeiros trinta e um dias do novo ano. Mexe daqui, mexe dali, mexe acolá esta semana redescobri um tesouro: grande caixa com as receitas culinárias prediletas da excelente cozinheira que era minha mãe. Achei que tivesse perdido aquele ‘baú de jóias de família’ mas não: estava apenas camuflado.
Fiquei extasiada olhando os papéis com a letra dela. Alguns soltos, a maioria amarelado. Cadernos completos, outros pela metade; verso de cartas dos familiares; parte de trás de receitas médicas e orações publicadas. Espaços vazios de santinhos de primeira comunhão ou de batizados, envelopes de carta. Qualquer brecha em branco era aproveitada para ela anotar, qualquer papel servia-lhe para perpetuar pratos e segredos culinários. Receita de geléia de damasco, por exemplo, recheio habitual de bolos ou tortas. ‘Ferver 300 g de damasco em um litro de água, por uma hora, na panela de pressão. Continuar fervendo, até diminuir bem a água. Colocar açúcar e apurar. Acrescentar 2 colheres de chá de gelatina branca, para dar consistência’. Lembrei-me de certa vez me meter a fazer a geléia e achar besteira pôr a gelatina. Claro que não deu certo. Teimar com mãe já não é bom negócio. Com mãe cozinheira e na cozinha é mal em dobro.
Recuperei a receita de Miscelânea — docinho com sabor digno de deuses, que supunha perdida para sempre. Achei outra, de estrogonofe, que fará Vladimir Putin ter água na boca. Não é receita daqueles ‘modo de fazer’ rapidinho, não. Demora. A começar da carne que deve — como está advertido — ‘ser cortada bem fina e cuidadosamente’. Precisa de platéia, páprica, paciência, além de ‘um vidro de cogumelos de excelente qualidade’ com a água também, quem diria. E o Arroz Indiano ? Ingredientes: carne bovina, bacon, passas, nozes, maçãs, cebola, queijo ralado. Suflês de carne moída, de batata, de queijo. Purê de batatas doces, de maçãs. Nada que se faça rápido. Receitas elaboradas, às vezes, trazem advertências interessantes. Por exemplo: ‘Levar ao fogo duas garrafas de leite.’ Na mesma linha, em seguida, a justificativa entre parênteses: ‘Atenção: duas garrafas é diferente de dois litros de leite no saquinho!’ Explica-se: foi escrita na época da troca das garrafas de vidro pelos recipientes de plástico para embalar o leite. Mais higiênicos, afirmavam, embora com menor quantidade de conteúdo.
Feliz e deliciada com as descobertas, entristeci-me ao perceber como o mundo ficou chato: somos coagidos a comer com ingredientes politicamente corretos. Por força disso, por um segundo, achei que a culinária de mamãe abusa de manteiga, de creme de leite, de castanhas e de bacon.
Lembrei-me, porém, que ela passava mais tempo na cozinha cantando, que desiludida em frente da televisão. Decidi reproduzir as receitas. Que os médicos cuidem dos eventuais estragos.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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