Necessidade de controlar: poderia ser a avaliação da atitude de organizar com rigor o que possuo, que pouco ou nenhum valor têm para os outros, mas que tomam vulto e significância nesta minha fase de vida. De organizar e de manter organizadas, para falar a verdade. Paralelamente foi assim que percebi o quanto busquei, durante a trajetória já percorrida, coerência e critério que me facilitassem estabelecer regras na vida e conviver com meus semelhantes. Até encontrei, mantê-las é que não tem sido fácil, pois particulares e bem diferentes daquelas dos circunstantes.
Pessoa de muitas posses — não de riquezas que podem ser roubadas, vendidas e render algum trocado — sou dona de objetos que se tornavam cobiçáveis, acredito, porque significativos para mim. Livros, por exemplo. Comprei muitos, ganhei alguns, troquei vários e nunca me desfiz de nenhum. Resultado: meu acervo me orgulha; olhar para eles é um prazer e saber que, com exceção de Treblinka e Santa Evita, li praticamente todos, me dá sensação de quase completude. Sobrepôs-se à dos livros a fase dos discos — de vinil e de CDs. Ouvir as bolachas pretas, independente do trabalho que dá, me faz redimensionar o significado de qualidade de som. Muitos livros e discos? São. Sei, porém, que se comparar o meu com patrimônios alheios, encontrarei maiores, melhores e mais completos. Livros, discos, e agora, a mania de juntar filmes. Afinal os tempos mudaram. Junto com os costumes.
Digestão de informações — e construção do conhecimento — possuíam andamento de adágio. Hoje, diante da rapidez da comunicação, qualidade e quantidade de novidades — não só em lojas quanto nos horizontes que a internet oferece — é muito difícil selecionar o que ler, ouvir ou ver. Além disso, tornou-se dificultoso pesquisar, achar, escolher e retirar o que desejo no meio do que a família chama de caos — e eu afirmo ser minha particular maneira de organizar os diferentes acervos que chamo de meus. Reler, ouvir novamente ou rever tornaram-se práticas difíceis de serem executadas, diante da fartura do material ao alcance das mãos.
Foi exatamente nessa fase que percebi preciosas descobertas: não basta ter; é preciso saber onde está. É preciso critério e coerência para armazenar. E é fundamental ter memória para saber onde guardei. Para alcançar aqueles objetivos e controlar o que chamo de meu — incluindo aí minha vida — precisei de muito trabalho, foco e segurança desde o início do processo de organização. Foi difícil, reconheço. Porém, mais difícil que organizar foi estabelecer limites: o que é meu é meu; posso eventualmente compartilhar, mas continua meu. E palpites são bem-vindos, desde que respeitem meu universo.
Demorou, mas acredito que hoje o panorama das minhas posses seja próximo àquilo que idealizei. Acho o que quero rápida e facilmente e, nas minhas pesquisas, o dedo indicador parece ter olho: avança por sobre as lombadas dos livros, das caixinhas que guardam discos e filmes e eureca! consigo encontrar as referências que procuro. Evidente, ninguém entende minha lógica de armazenamento: por ser subjetiva, torna-se obscura para quem não enxerga como eu.
Assustam-me tais reflexões. Na realidade, não sou dona de nada: a qualquer momento deixarei tudo, sem levar nem documento de identidade. Objetos que digo meus, motivos de orgulho e eventualmente de certa soberba, podem quebrar, estragar, rasgar, desaparecer: são bens materiais, como eu, finitos e imperfeitos. De meu mesmo, bens não sujeitos a deterioração, são lembranças, experiências, memórias, situações de prazer e de dor vividas das quais desfruto mas que se apagarão, simplesmente, quando eu me for. Tudo o mais servirá apenas, como dizem os filhos, dar trabalho para ser redistribuído. Para facilitar, comprometi-me com eles a avisar com antecedência de dois anos, pelo menos, a data da partida. Farei o possível para cumprir.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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