Dias novos


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O ser humano adora comemorações. Festeja aniversários de nascimento, abertura de supermercados, conclusão de trabalhos, formaturas. Celebra datas redondas dele mesmo e de instituições. Faz festa de casamento — que nem duram mais tanto tempo assim, e já ouvi contar até de tertúlia regada a champanhe solenizando separação de casal. Na verdade, qualquer mudança no cotidiano humano merece comida, som e animação. Pós-trabalho de funerais em países adiantados — e vários filmes mostram a reunião — lá vão os convidados até à casa do recém-enterrado onde lhes é servido farto bufê. Estranho? Quer coisa mais estranha que nascer e saber que lá um dia vai morrer? Ao que acontece entre os dois grandes eventos — Nascimento e Morte, a isso chamamos Vida. Celebremos, pois, a Vida nas suas mais variadas manifestações.

Embora haja grupos sociais para os quais a mudança de ano é feita em outra data, o encerramento do ano em 31 de dezembro é comum à maioria dos seres vivos do planeta.

A celebração do Ano Novo toma ares festivos e é motivo de estímulo para sonharmos mudanças profundas nas nossas vidas e disposições. Assim, em Arapiraca ou em Dubai, réveillon é festa bonita, com dourado, prateado, champanhe, velas na mesa, roupa branca, fogos de artifício, rosas brancas e vermelhas, arroz com lentilha, grãos de romãs e, se houver proximidade com o mar, pulos sobre sete ondas. Beijo na boca, para os mais novos.

Vivi a festa em muitos lugares. Em todos eles a mesma rotina de esperança, através dos mesmos procedimentos, apenas minha idade e animação, pensando bem, se mostram diferentes. Tirante isso, o resto é igual. Dois eventos estão entre os memoráveis: o passado na maternidade, quando o filho caçula nasceu, e o de 79/80, no Guarujá. Naquela noite foram todos para a praia aguardar a chegada do Ano Novo e eu fiquei em casa com o filho ardendo em febre: problema de garganta, coisa à toa. Ele se deitou no meu colo, liguei o rádio para acompanhar a contagem regressiva. Frenéticas, eufóricas e sincopadas músicas se sucediam, quando entrou samba manso cantado, e a voz inconfundível de Caetano. Peço a Deus, de Mestre Marçal e Dedé da Portela, ali se tornou meu hino de Ano Novo. Letra que traz todas minhas aspirações para novo tempo que se avizinha, pede: um mundo cheio de paz; que alcancemos nossos ideais; que a inveja não nos ataque; que sejamos todos iguais. Que fiquemos livres da maldade; que a felicidade nos acompanhe; que a bondade se propague; que tenhamos todos, amor e prosperidade. Que sigamos de mãos dadas e peito aberto na direção do bem; que tenhamos força para lutar contra a maldade do mundo para ‘viver uma vida mansa, sem ver o tempo passar, ter sorriso de criança, ver bondade em cada olhar.’ Confesso, chorei... Naquele momento fiz da letra da canção minha oração de Ano Novo. Isso no plano das aspirações. No plano prático, como nos anos anteriores, relacionei coisas a serem feitas. Dada a incompletude, repito a mesmíssima lista. Fazer ginástica sem chiar; calar a boca; não revidar besteira; conseguir perdoar; voltar a bordar; terminar trabalhos iniciados, visitar amigos; não esquecer aniversários; ter mais paciência; ouvir mais; fazer poupança; parar de acreditar que posso mudar o mundo e quem vive nele.

Nova volta da Terra ao redor do Sol. Novos 365 dias. Que sejam 365 presentes a serem abertos com a mesma alegria, determinação e coragem que exibimos no réveillon, com a certeza de que sim, a felicidade está ao alcance das nossas mãos. E cuidado com o que se planta no presente: a inexorável e implacável Lei da Vida decreta que mais cedo ou mais tarde seremos obrigados a colher o resultado.

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - lúcia helena@comerciodafranca.com.br

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