De Natais


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Pequena, pra mim mamãe era fada, criatura mágica que transformava a matéria. Púbere, ela se transformou em gente comum. Adolescente, metamorfoseou-se em bruxa. Adulta, voltou a ser gente, ainda que continuasse comum. Hoje, sinto-a fada, criatura mágica que transformava a matéria. Ela nunca mudou. Eu é que me transformei em cada ciclo. Com a proximidade do Natal lembranças, fantasmas, fadas e anjos vêm povoar meu imaginário. Sinto-me criança outra vez e a falta da minha mãe chega a doer, de tão intensa.

Lembro-me dela apertando o cinto para manter a tradição da ceia do dia 24 de dezembro. Não tinha peru, mas frango caipira. Não tinha panetone, mas bolo enfeitado, recheado com doce de leite e de goiaba — ambos de confecção doméstica. Não tinha chocolate, mas cocada. Éramos cinco, então. Ela e papai tomavam vinho e nós — aquela única vez no ano — tomávamos guaraná! Na mesa tinha castanha portuguesa — cinco. Amêndoas, cinco. Nozes, cinco. Avelãs, cinco. Ela punha as iguarias em pequenas vasilhas de vidro, ao lado do prato de cada um, mas só podíamos comer depois dos quentes, e como sobremesa. Enquanto ela punha a mesa, enfeitada com ornatos natalinos, tomávamos banho, púnhamos roupa de domingo e aí ela vinha nos pentear os cabelos. Laço de fita imenso. Não podíamos mais sair lá fora, porque a rua não era calçada e sujaríamos sapatos e meias. Sentava-nos na sala, ela ia se preparar. Não existia televisão: cada um de nós pegava um livro, abria-o e esperava. De vez em quando nosso olhar ia para a árvore de Natal no canto da sala, enfeitada com algodão e berloques com purpurina e já nos imaginávamos tirando os sapatos antes de dormir, para colocá-los sob a árvore: Papai Noel traria nossos presentes. Quase nunca era o que pedíamos: era o que eles podiam nos dar. E, incrível! Por mais distantes que fossem da nossa expectativa, eles nos satisfaziam.

Mudamos. O tempo, nós mesmos, as crianças e o Natal. Se usar minha própria classificação sobre o papel materno, hoje sou apenas gente, das mais comuns. Não sairei para comprar apenas cinco castanhas, avelãs, amêndoas: mesmo que ninguém coma, elas estarão na mesa, aos montes. E mesmo que ninguém coma, haverá peru, chester, tender, lombo, leitoa. Fora aperitivos e entradas. A saída será o bolo gelado, panetone, doces caramelados. Sob a imensa árvore da sala, cheia de luzes, laços e berloques dourados não se encontra qualquer pacote de presente: alguns foram dados antecipadamente, outros não chegaram, ainda. Virão pelo correio, mas não pelo Papai Noel e não causarão surpresa: muitos foram escolhidos e comprados pelo próprio dono, para não causar insatisfação, sabe como é. As crianças não sabem o que é desejo. Jovens não suportam esperar.

Os adultos esqueceram o valor do sonho e o sentido do Natal como festa de reunir família, amigos, repartir afeto, compartilhar alegria, pôr à mesa o que se tem, distribuir e compartilhar todo amor disponível. Esse, então, quase desapareceu.

Temo perguntar a quem quer que seja — principalmente a quem bate no peito e se diz cristão: Natal é aniversário de quem? Não estranharia se a resposta fosse ‘Do Papai Noel, claro! Que distribui presentes, por isso todo mundo comemora a data com ele.’

Frustrada, decidi copiar minha mãe. Não dizia que era fada que transformava matéria? Pois, como muitas vezes ela fez, construí manualmente meus presentes de Natal analisando cor, textura, detalhes e pensando em cada um que o receberá. Conforme aprendi, botei imensa carga de amor em cada objeto. Conexão de coração para coração, nada do que darei precisará ser ligado à eletricidade. Faz tempo que não me sinto tão feliz com a proximidade da data. Feliz Natal, pra você também!

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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