Lições da vida


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Conversavam como amigas de longo tempo, com a fluência verbal que amizades antigas proporcionam. Uma, tranquila e altamente espiritualizada; outra teimosa, impetuosa e passional. Trocavam confidências quando a mais sábia pontuou a conversa — cuja tônica eram as dificuldades que encontramos nos quesitos harmonia, compreensão, situações adversas e incontroláveis. Pode não ser totalmente verdadeiro, geral, amplo e irrestrito, mas a tendência é a de, ao enfrentarmos tais dores da vida, posicionarmo-nos como vítimas.

Pode também não ser justo, mas o desvio da responsabilidade é bastante cômodo: pimenta arde em nós. Nos outros, é refresco. A mais ponderada sugeriu que a outra se mostrasse permeável à sabedoria dos avós que defendiam que há males que veem para bem.

Afirmava que, certamente, é preciso alta dose de aquiescência às situações e conflitos que fogem do nosso controle que, de certa forma, nem da nossa competência ou alçada são. Não fosse o sangue de péssima qualidade talvez a cabeça dura a ouvisse com maior pertinência e, quem sabe, anuísse seus sábios ensinamentos. Foi quando a mais sensata contou-lhe a seguinte fábula:

‘Havia um agricultor que tinha pequeno sítio que tocava com seu único filho, auxiliados apenas por cavalo já meio capenga. Os vizinhos diziam-lhe: Coitados de vocês! Têm tão pouco... E ele lhes respondia: Pois é. Talvez seja um bem, talvez seja um mal que as coisas sejam assim. Certo dia o cavalo sumiu. E ele teve que trabalhar dobrado, junto com o filho, para dar conta do recado. Os vizinhos novamente foram até ele: Coitados de vocês! Agora trabalharão muito mais, ficarão mais cansados, sem o auxílio do cavalo! E o agricultor lhes respondeu: Pode ser que sim, pode ser que não. Pode ser um bem, pode ser um mal que as coisas estejam assim. Quem sabe? Pois sem que esperassem, um dia o cavalo retornou e veio acompanhado por égua saudável e ágil. Os vizinhos, ao saber da novidade, acorreram ao sítio e, entusiasmados com a dupla de animais, disseram ao fazendeiro e ao filho: Que bom! Tudo voltou ao normal e está melhor que antes! Agora vocês podem descansar dos tempos difíceis e sem ajuda! O fazendeiro, pensativo, respondeu: Pode ser que sim, pode ser que não. Vamos esperar para ver. Passado algum tempo, o impetuoso filho do agricultor, tentou domar o novo animal que, ao ricochetear, lançou-o ao chão, o que lhe custou fratura da perna. Lá vieram os vizinhos: Que pena! Agora que vocês estavam mais descansados... que desgraça! O velho fazendeiro lhes respondeu: Pode ser que sim, pode ser que não seja tão grande infortúnio assim. Enquanto o rapaz se recuperava, irrompeu uma guerra. Todos os jovens filhos dos vizinhos foram convocados, e morreram, menos o filho do fazendeiro, que estava em recuperação.’

Entendeu? A gente não sabe. Pode ser que tudo que lhe aconteceu seja um bem; pode ser que seja um mal. Aceite o acontecimento, viva suas dores, sem lamentar ou exultar. Sem avaliar, inclusive.

Ao notar o entusiasmo da querida e imperfeita criatura, sobre a conversa que tivera com a outra amiga, e mais o relato da fábula, secretamente duvidei que ela possa conseguir: essa imensa e profunda capacidade de sublimação é própria apenas de espíritos mais evoluídos.

Muita água vai rolar sob a ponte até que ela consiga perceber que a aceitação e o acolhimento das atitudes que nos machucam dependem de muitos outros fatores, quando se é simples mortal. Pode ser que sim, pode ser que não, que um dia a gente engula sapos com mais facilidade, e consiga digeri-los com resignação e tolerância. Falo isso por mim.

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, professora, escritora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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