Compaixão e cumplicidade


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Imagine a possibilidade de (re)viver determinada fase da vida, sem mudar ou alterar o curso dos acontecimentos, apenas (re)desfrutar de situações prazerosas, outras nem tanto mas que lhe ensinaram bastante sobre a difícil arte de conviver com o próximo; aquelas que ainda fazem seu coração parar por instantes; momentos gloriosos de felicidade plena; acontecimentos emocionantes que ainda fazem rir ou chorar. Seria a glória, não? Sonho com ela. Fosse possível, escolheria os anos 80 e 90 para o utópico revival.

Imensos, significativos, atrozes, pragmáticos, intrigantes, didáticos e exemplares acontecimentos da minha nem tão curta vida estão concentrados nas duas décadas, embora outros tão igualmente intensos, expressivos e também excitantes tenham ocorrido nos outros anos. Decidir casar, estrear como mãe e como avó, por exemplo, estão fora do espaço compreendido entre 1980 e 1999, e foram situações lindas e inesquecíveis. Destaco, entretanto, dois encontros no passado como situações nas quais entrei em contato com a dor alheia, aprendi a respeitá-la e, quiçá, espero, tenha ajudado com minha cumplicidade e compaixão. Ambas estão nos distantes anos 80.

Final de tarde, conhecido e prestigiado francano entrou na minha loja. Chorava copiosamente. Trazia com ele absurdo toca-fitas, que colocou na mesa. Balbuciava frases desconexas, mas entendi que me pedia para escutar determinada música. Passado o susto, breve instante da música escorrendo até reconhecê-la ele, engasgado pela emoção, relatava seu drama: a separação da mulher que amava, a dor do abandono, da preterição, a insegurança de não saber para onde ir depois do trabalho. Foram sempre tão felizes! Eram tão felizes!... Por que ela havia feito isso: eu poderia explicar? Lembro-me de ter chorado quase tanto quanto ele. Não podia dizer nada, nunca havia enfrentado situação tão dramática, não éramos tão íntimos e eu, inexperiente. Como iria me atrever a dar alguma explicação? Foi quando entendi, de verdade, o sentido de compaixão. Com paixão eu o ouvi em silêncio, segurei sua mão. Fui sua cúmplice pelo tempo que lhe restou de vida: outras vezes nos encontramos, mas ele jamais tocou no assunto. Quando morreu, chorei de verdade, mas acredito que de alívio: suas dores de amor devem ter se encerrado naquele dia. O cantor Julio Iglesias continua por aí, continuo não sendo grande fã, mas quando escuto Hey, ainda me emociono.

O amigo homossexual dizia não se importar muito com os falatórios sobre sua condição, embora sofresse com certa repressão e alguma reprovação social. Fez força para ser feliz e, de certa forma, foi vitorioso em sua curta vida. Foi criatura do bem. Cercado de bajuladores e aproveitadores, embora os reconhecesse, achava graça em pensar que eles acreditavam que o estavam enganando. Certa vez, à guisa de cortejo, presenteou o paquera com veículo motorizado. O rapaz, sem prática ou habilidade, acreditava que dominaria a máquina. Acabaram ambos sob veículo mais poderoso. Houve o enterro acompanhado por maledicências e acusações. Certa manhã passava pelas cercanias do seu trabalho quando ele literalmente pulou na frente do meu carro. Fez sinal, parei, ele entrou e me pediu para levá-lo embora. Fui parar no final da avenida Brasil, de cima do morro onde ainda se avista Minas Gerais. Ele desceu do carro, pôs as mãos no rosto, curvou-se e uivou. Urrou. De dor, de saudade, de vergonha, de tristeza, acho que de arrependimento. Toda a emoção que escondera e encolhera, botou para fora naqueles minutos. Entrou no carro, novamente me agradeceu, não disse nem mais uma palavra. Nunca tocou no assunto, nunca falamos daquela experiência e fomos amigos até sua morte. Aquele foi meu segundo momento de viver verdadeiramente cumplicidade e compaixão. Se eu for parar no céu, quando morrer, terá sido por conta dessas duas situações.

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professsora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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