Pesos e padrões


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A geração nascida por volta dos anos 50 é das últimas que apanhou dos pais; não teve psicóloga na escola — mas teve dentista; excelentes diretores; inspetores que eram respeitados; competentes professores que eram temidos, endeusados e comandavam as classes com pulso firme e destemor. As pessoas pediam licença para entrar na casa alheia; agradeciam gentilezas que lhes eram feitas; cumprimentavam-se uns aos outros; crianças não ousavam responder com grosseria nenhum adulto que as desagradasse. Pensando bem, acho que esse tempo de criança era tempo de dinossauros. Uma das netas ao contar que eles viveram há muito, muito tempo, perguntou se quando eu era pequena, eles ainda existiam. Pensando bem, acho que sim.

Tem mais para provar que eu sou jurássica. Os carros da cidade eram poucos. Todo mundo sabia qual era de quem. Havia lugar de sobra para estacionar, não se cobrava pelo tempo de ocupação de vaga em espaço público. Não me lembro de faixa de pedestre, mas lembro da alegria que foi quando o primeiro semáforo foi instalado, bem no cruzamento da Voluntários com a Major Claudiano. Era um só, mas à semelhança do único dente do matuto da caricatura, dava conta do recado. Atropelamentos eram raridade, a velocidade dos carros que trafegavam era baixa — um terço da permitida hoje para avenidas. A diferença é que era respeitada. Tinha meia dúzia de bocós, que a população chamava de playboys, tão ridículos quanto os bocós de hoje que andam com equipamento de boate no porta-malas. Namorávamos escondidos dos pais nos carros e procurávamos ruas quietas e quase sem movimento para estacionar. Os vidros do veículo ficavam embaçados — esquecíamos de abri-los. Volta e meia um policial surpreendia o casalzinho com discreta batida na carroceria. Não tinha motel, mas não tinha bandido, não tinha ladrão, não tinha assaltante.

Comia-se bem, mas poucas vezes por dia. E a gente comia o que bem entendia. As avós cozinhavam com gordura de porco. Carne de porco, aliás, era recorrente no cardápio semanal. Sobremesa? Doces de caldas: abóbora, mamão, laranja, goiaba. Doce de leite. Tudo acompanhado de queijo ou de requeijão molengo e preguento. Frutas como maçãs ou peras — apresentadas devidamente embrulhadas em papel de seda azul de metileno eram importadas, muito caras. Pêssegos, então, nem quando estávamos doentes... Em algumas casas permanecia o hábito mineiro de fazer quitandas. Bolos. Pãezinhos. Toda tarde punha-se toalha xadrez na mesa, coava-se café e a dona da casa aguardava as visitas para a degustação. Como carro era artigo de luxo, todo mundo andava a pé. Às vezes, para trajetos mais longos, usava-se tomar ônibus. Poucas linhas, preço justo. O pé-dois, porém, ganhava disparado. Íamos para os bailes a pé. Ao cinema, a pé. À escola, a pé. Às compras, a pé. E as pessoas obesas eram raras.

As notícias, atualmente, estão longe de serem alvissareiras: punição para pais que acreditam que puxão de orelhas e tapa na bunda ainda auxiliam na colocação de limites; professores atacados nas escolas; alunos sem aulas. Assaltos, crimes, agressões, violência, impunidade. O pior, porém, são as reportagens sobre o aumento de peso das pessoas. Estamos ficando obesos! Tristeza, raiva, ansiedade são motivos e tanto para abrir o apetite, reconheço e, benza Deus! recebemos estímulos desse tipo, de todo tamanho e de todo lado a toda hora. Passar esparadrapo na boca ajuda a não ganhar peso, admito e vamos usufruir dos benefícios de caminhar para auxiliar na eliminação de indesejáveis excessos.

Mas cá entre nós: se não der, espalhemos reproduções dos quadros de Renoir para provar que gordinhas são bonitas. Ou, sem desespero: passagens para Mauritânia — onde o padrão de beleza feminina beira os cem quilos — são baratas. Qualquer coisa, todavia, a gente radicaliza: passa a lutar sumô.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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