Trânsitos


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Napoli! La bella Napoli! Capital da Campania, quase 5 milhões de habitantes; conhecida por sua história, música, encantos naturais e por ser a terra natal da pizza. Cenário dos becos dos filmes da belíssima Sophia Loren. Tem universidade fundada em 1224, sobreviveu à explosão do Vesúvio ali, na vizinha Pompéia, e é onde nasceram cinco papas: dois Bonifácio, o Urbano, um Paulo e um Inocêncio. Fosse permeável a todas essas circunstâncias, tinha tudo para ser heráldica, pomposa, circunspecta e chique como uma baronesa. Tinha, mas foi onde vi o segundo pior trânsito em toda minha vida. Os carros surgem ao lado do transeunte como se brotassem do chão e vão embora, sem que se tenha tempo de ver a marca, a cor, muito menos se tinha piloto ou era guiado por controle remoto controlado por palhaço brincalhão escondido atrás de qualquer daquelas janelas milenares dos imensos prédios.

Tão logo o susto — e o perigo do atropelamento — passam, a pessoa grita, bate o pé de raiva e xinga tudo que pode. Debalde: lambretas de todas as cores e com pilotos mais atrevidos que o motorista que sumiu, sobem e descem as calçadas a seu redor, brecam umas sobre outras, com você no meio delas. Mais xingatórios, mais freadas, mais gritos histéricos. Lá longe um bandolim suona, alguém canta Santa Lucia Luntana e, como resultado de encantamento, o momento agora é de serenidade. Momento, não: instante. No preciso instante seguinte outro grito quebra a ordem e reinicia o processo que sugere hecatombe. Deverá ser assim o fim do mundo, acredito.

México. Cidade do México. Lá fui eu certo dia, buscar a história de Frida Kahlo, Sim, daquela incrível, corajosa e fascinante mulher. Queria pisar no mesmo solo que ela, ouvir as músicas que ouvia, passar pelas mesmas ruas, conhecer algo mais que os livros e o belíssimo filme sugeriram. Enchi-me de leituras, pesquisas, anotações, peguei o avião e fui. Lembro-me da Virgem de Gauadalupe, da Universidade Nacional Autônoma do México — fundada em 1553 e uma das mais antigas da América. Estão vivas, entre outras, as tequilas, os boleros, Teotihuacan, os painéis de Rivera, a casa de Frida, a fundação Dolores Olmedo Patino, as corridas de fuga dos lagartos e o trânsito da ruas da Cidade do México, segunda cidade mais populosa da América, onde vivem quase 9 milhões de habitantes e seus carros maravilhosos e nem tanto. Não me lembro de ter atravessado — mesmo no lugar apropriado — uma rua sequer naquela cidade. Deve ser por isso que voltei viva. E ninguém me tira da cabeça que a cadência musical dos mariachis impressa
em Jalisco, por exemplo, é a que inspira a cadência do trânsito na cidade do México, rival de Nápoles no quesito ruindade.

Franca, Estado de São Paulo. Cidade de porte médio, população também mediana. Frota de veículos constituída por impecáveis Ferraris, Lamborghinis, Bugattis, Porshes. Hábeis e cuidados motoristas ao volante de seus bólides voadores, prestam atenção aos pedestres e companheiros de tráfego. Reconhecem e param nos sinais, sabem o que significa a cor vermelha dos semáforos nos cruzamentos nevrálgicos da cidade que, aliás, tem ruas largas e adequadas ao expressivo número de carros que passam por elas. Os motoristas só usam velocidade permitida, têm a delicadeza de parar quando outro veículo está prestes a sair de sua garagem. Nunca se viu ultrapassagem pela direita. Nem fila dupla. Não há um único carro sem documentação completa.

Não me chamo Iracema, entrei na contramão, veio o carro e me pinchou no chão. Morri. Só pode ter sido por atropelamento: vida de pedestre francano não vale uma brecada, pois gasta o pneu. O trânsito daqui causa inveja em Nápolis e na Cidade do México.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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