Viajando e aprendendo


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Algumas vezes percebo enorme distância entre imagens de televisão e a realidade. Uma coisa é ver o deputado cair de joelhos e agradecer - a Deus não acredito que seja: Deus não pode ser parceiro de desavergonhice - a sei lá quem, o fato de ter se safado de perder as sinecuras da deputança e outra, o mesmo deputado se arrepender de tê-las cometido. Reportagens de guerra na televisão e sentimentos: faz tempo, mas lembro-me que, ao ver milhares de bombas caírem sobre Bagdad, minha impressão era a de ver na tela imagens de vídeogame. Olhava com certa indiferença, talvez pela dor de reconhecer ali a triste experiência de seres humanos. Mas entre o real e o virtual, não há tanta distância assim, agora tenho certeza.

Não poderia imaginar, apesar de toda pesquisa, de toda preparação anterior, mas recentemente fui parar em outro mundo. No desejo de imprevisibilidade turística, escolhi a Croácia para visitar. Não apenas conhecer terra diferente: ir para onde jamais supusera antes e realizar parte do sonho de fazer parada em um dos pontos do romântico percurso do Orient Express, o trem que fazia o trajeto Paris-Istambul e parava em Zagreb, hoje capital da Croácia. No mapa, Itália de um lado, Mar Adriático, Croácia do outro. A antiga Jugoslávia de Tito desapareceu e em seu lugar nasceram Sérvia, Montenegro, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia e Eslovênia. A anedota sintetizava o sistema político-étnico por aquela época, ainda perceptível na atualidade: ‘Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um Partido’.

Acompanhei a guerra na Bósnia, a matança em Sarajevo, as bombas sobre Dubrovinick, a sanha destrutiva em Montenegro: notícias de jornal, imagens de TV e filmes. Horrorizaram-me, como a guerra em Bagdad, mas não havia visto no plano real os efeitos do fogo, da desolação, filhos órfãos, mães e pais sem filhos, rombos nas paredes, buracos no chão, pedras - que antes eram estrutura de casas - esparramadas. Você bota o pé nessa região européia e as imagens antigas, vistas virtualmente, voltam à memória e, juro! a gente chora. Em vinte anos os croatas conseguiram recuperar brilho, charme e beleza das cidades, com o apoio da Unesco e da ONU. Falam da guerra, mas o orgulho de terem superado a desgraceira toda é superior às iniquidades que sofreram. Povo alegre e sorridente, música contagiante, lavanda, azeite, mar maravilhoso, praias nem tanto, jóias de coral, ruas de pedra polida que brilham como mármore, espetaculares parques que fazem o brasileiro ficar vermelho de vergonha pelo estado da Canastra e da Bocaina, rica gastronomia e muitas outras lembranças dos horrores da guerra vividos em antigo e, claro, recente passado. E muita, muita história.

As dolorosas lembranças revividas na Croácia, no entanto, não são apenas aquelas das guerras travadas. São provocadas pelas dores do rompimento das relações amorosas entre pessoas que nem sequer conhecemos. Em Zagreb, o Museum of Broken Relationships leva o visitante a outro patamar de cumplicidade. Sugiro visita virtual (basta pedir brokenships.com) ao site do museu. Quando se trata de dor de amor - virtual ou real - lágrimas descem mesmo quando você escuta a história e descobre que a dor deles é também sua. É por isso que gosto de viajar. Você aprende até a engolir o orgulho e fazer força para voltar a ser feliz.

Dori Caymmi, Nelson Mota: ‘Dor de amor quando não passa é porque o amor valeu.’

Eça de Queiroz: ‘O amor eterno é o amor impossível. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam.’

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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