A imagem estampada em receituário de médica francana chamou-me atenção: A Extração da Pedra da Loucura, reprodução de quadro de Hieronimus Bosch, pintada no século XV e atualmente exposta no Museu do Prado em Madrid. Pequeno quadro: mede 48x35 cm. O autor, parece, representa ali a espécie de cirurgia que se realizava durante a Idade Média, que consistia na extirpação de pedra no cérebro a que se atribuía a causa da loucura no ser humano. Naquele tempo, loucos eram aqueles que, literalmente, tinham pedra na cabeça. Não apurei se a crença é origem da expressão louco de pedra.
O conjunto impressiona. No pequeno espaço há quatro pessoas representadas: o padre, o médico, o paciente e a freira. O padre carrega garrafa de vinho — o pintor quis mostrá-lo beberrão, criatura fragilizada diante das tentações do mundo?A freira tem livro aferrado na cabeça: alegoria à superstição? À ignorância? Ou ele sugere que ela é bruxa com o livro da invocação de magia no comando de sua racionalidade? (Certeza: o clero não gozava de muito prestígio por parte de Bosch.) O médico, ao invés de gorro, tem um funil na cabeça, claro símbolo de estupidez e extrai algo da cabeça de indivíduo que, consciente, olha na direção de quem vê o quadro. Na verdade, o que sai de sua cabeça não é pedra, é uma flor: uma tulipa. Vê-se que a bolsa de dinheiro do paciente está atravessada por punhal: ele seria criminoso? Ou é crítica contra aos arrogantes que pensam ser donos do saber, mas que são, de fato, mais ignorantes que os loucos que pretendem curar?
O tema do quadro, aliado ao formato circular que o artista escolheu lembra um espelho: o que estaria por detrás dessa escolha? E a legenda que circunda o quadro diz, em holandês, é uma súplica: ‘Mestre, extrai-me a pedra. Meu nome é Lubber Das.’ (Lubber Das é personagem satírico da literatura holandesa que representava a estupidez.) Lembrei-me da imagem dias atrás quando, entre amigos, discutíamos sobre sanidade mental de pessoas próximas e distantes e suas decisões e atitudes descabidas, em algumas situações. Gente que sai no grito, quando desagradada; gente que discute no trânsito com quem nem conhece, só porque se frustrou; o rapaz que ofendeu a mulher descabidamente porque ela não lhe deu passagem no semáforo, coisas assim. Cervejinha gelada, papo rolando, beliscos, falei do quadro. Deve ser muito tênue o fio que separa na nossa mente seus limites de sanidade e insanidade. Não fosse a momentânea loucura, a mãe que não sabia nadar jamais se atiraria no poço para salvar o filho, como a imprensa registrou um dia. Não fosse a inesperada cegueira provocada pela louca ousadia, o bombeiro jamais entraria pela casa incendiada afora, para salvar a criança ilhada pelas labaredas, como todo dia a imprensa divulga.
O que nos faz heróis ou bandidos, é o momento de insanidade. (Claro, os bandidos da política estão fora dessa análise: são frios demais, calculistas demais, bandidos demais para serem considerados apenas loucos acidentais.) Pedra no cérebro, para justificar loucura? Qual o quê! Às vezes a pedra está é no coração, acredito eu. E, de mais a mais, só acredito que seja louco, louco de pedra, quem rasga dinheiro. Não rasgou? Que lhe atribuam qualidades como maldade, insensatez, falta de raciocínio, burrice mesmo. Loucura, não, meu irmão: os loucos merecem respeito.
Nietzsche: “Nos indivíduos a loucura é algo raro, porém é a regra nos grupos, nos partidos, nos povos e nas épocas.”
Proust: “Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar dentro de nós certas pequenas loucuras.”
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora
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