Viagens e viajantes


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Antigamente, viagens e viajantes para o exterior eram raros. Considerado privilégio, o fato dos viajantes saírem dos seus limites urbanos era referência elogiosa, valores a serem apostos a currículo e profissão. Nas apresentações formais, por exemplo, além do nome, acrescentava-se: ele/ela já foi à Europa, à semelhança do ocorrido com os astronautas. ‘Senhora, este é Neil Armstrong; ele já foi à Lua’...

Eles viajavam mais que elas. Atravessar oceano era algo muito ousado. Viagens, de ponto a ponto, por navio duravam quase duas semanas. Trecho por avião hoje feito em dez horas, São Paulo-Paris por exemplo, demorava mais de dezoito por causa de escala, para reabastecimento dos aparelhos. Tinha protocolo para o embarque - mulheres usavam chapéu, luvas, meias de seda e tailleur; homens terno, gravata, chapéu e sapato lustroso. Não. Não é do tempo de Cabral, não: é década de 50. Grandes transformações. Lá pelos 80, quando viajar deixou de ser privilégio, chapéus abolidos, permaneceram certos requintes: talheres de metal e copos de vidro. Fumar era permitido. A classe dos fumantes ficava no fundo e, quem ia à frente, olhava para trás e tinha impressão de chuva a qualquer instante: pairava pesada nuvem de fumaça no fundão... O cheiro incomodava.

Fascinava-me saber que alguém iria viajar. Vontade de perguntar como arrumaria as malas, o que levaria nelas; a que lugares iria; quanto tempo demoraria neles. Quando voltavam, queria ouvir o que viram, se haviam conhecido isso e principalmente aquilo que minha imaginação questionava se, de fato, existia: a Acrópole em Atenas, por exemplo. O Monte Branco coberto de neve o ano inteiro. Era insaciável, garota sem internet, sem Google, cuja fonte de informação eram livros e relatos de quem pudera ir.

Adulta, emocionei-me ao receber o primeiro passaporte. Viajara dentro do Brasil: alguns pontos do sul, outros do nordeste, Rio e São Paulo. Naquela época o país media dimensões intransponíveis e possuía circuito turístico bastante limitado. No entanto não me lembro de ter saído de casa para qualquer passeio sem friozinho na barriga, sem idealizar, sem preparar minha imaginação para absorver coisas diferentes e armazenar informações.

Viagens se transformaram em pós-graduação existencial que ajudaram no meu crescimento enquanto ser humano. Descobrir que seria premiada com igual benefício - independente de estar a menos de dez ou a milhares de quilômetros de distância do ninho - me fez repensar sobre privilégios. Sair de casa em direção a qualquer lugar diferente da minha circunstância, deixar tudo para trás, enfrentar desafios é que me ensinaria, não o processo de arrumar e desarrumar malas, entrar e sair de avião, carimbar passaporte. Vi que o mundo era minha escola, com salas em Paris, na Canastra ou Restinga. Assusto-me quando alguém usa o privilégio de ‘poder sair e ir’ - sinônimo particular de viagem - para impressionar ou demonstrar excentricidade, esquisitice talvez extravagância. Agora ficou fácil sair e ir: o Google - moderno oráculo - responde e fornece com fotos e depoimentos opções, informações, possibilidades e sugestões. Mais experiente, afirmo que algo mais ilustra, lustra, amplia e extrapola o antigo conceito de viagem: viajar é sair da própria zona de conforto e é como terapia: ambas experiências, exigem coragem para enfrentar. Quem vai, volta modificado e traz novas interpretações para ameaça e superação, o que vale tanto para Ulisses e Marco Polo, quanto para nós.

Na camiseta: ‘Não preciso de Google. Minha mulher sabe tudo!’

Turista sofre!: Carrega peso; faz malas; come o que não gosta; espera; entra em filas; dorme mal; tolera atrasos. Sofre com jet lag... (Luiz Querino)

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, escritora - lhmaniglia@gmail.com

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