‘A mudança é a lei da vida. E aqueles que confiam somente no passado ou no presente estão destinados a perder o futuro’
John Kennedy, político americano
Estávamos no segundo semestre de 1998. Um pouco antes, em março daquele ano, tinha visitado a Fiepag, feira gráfica realizada anualmente na Capital. Vi um sistema editorial informatizado para jornais, desenvolvido por especialistas argentinos. Descobri que o sistema era o mesmo utilizado pela Folha de São Paulo. Tudo que eu queria, naquele instante, era conseguir trazer aquilo para o Comércio. Tinha certeza de que assim faríamos um jornal muito mais bonito e funcional.
Voltei para Franca obcecado com a ideia. Trouxe informações detalhadas sobre o sistema, negociei um bom preço e me preparei para o que, certamente, seria um embate difícil: convencer meu pai. Deu certo. Não sei se foram meus argumentos, o câmbio artificial que fazia com que 1 US$ valesse R$ 1,20 e facilitava a compra de importados ou se foi ajuda divina, mas o fato é que o convenci de que valia a pena investir naquele sistema.
Meses depois, os técnicos começaram a chegar de Buenos Aires, São Paulo e Curitiba. Nunca vou me esquecer do primeiro deles. Recebi o rapaz, mostrei a redação acanhada no velho prédio da Ouvidor Freire, a mesa improvisada onde ele poderia se instalar. Apresentei a equipe. De repente, o rapaz dispara:
- ‘Onde que tem uma academia?’
- ‘Como? Para que você quer isso?’, perguntei, atônito.
- ‘Ué... Essas instalações são sempre muito demoradas, um monte de pau... Não quero ficar sem malhar.’, vaticinou.
Quase infartei. De acordo com o contrato, fazia parte da ‘instalação’ quinze dias. O que ultrapassasse, a gente pagava. Por dia. Por técnico. Em dólar. Semanalmente.
Para piorar tudo, o mesmo rapaz, no final daquele primeiro dia, me pediu o projeto gráfico. Perguntei a ele que projeto era esse que ele queria. ‘O projeto, o desenho das páginas...?’. Só aí nos demos conta de que não fazia parte do pacote nenhum projeto gráfico ou editorial, apenas o software, a ferramenta. Não havia então um único rabisco esboçado por quem quer que fosse. Nesta hora, tive certeza de que infartaria.
Como chorar não resolve e arrependimento não combina comigo, resolvi botar logo a mão na massa. Decidimos implantar primeiro os Classificados enquanto eu desenhava o novo jornal. Dormi ali mesmo no prédio do Comércio, em jornadas de trabalho de até 20 horas. Segui meu instinto, tentei me inspirar em modelos que gostava, suei muito a camisa... Fui bastante ajudado pelo Sidnei Ribeiro, então editor do jornal, e por dois jovens repórteres, Joelma Ospedal e Sérgio Marques, hoje respectivamente editora-chefe e editor de Esportes do Comércio.
Foram muitos traumas. No primeiro dia do novo Classificados, o caderno simplesmente não foi publicado por conta de uma pane. Repetimos o do dia anterior enquanto trabalhávamos para resolver os problemas, que foram superados.
Enfim, no dia 10 de dezembro de 1998, uma quinta-feira, exatamente um mês e três dias depois do nascimento da minha primogênita, o então ‘novo’ Comércio nasceu. Passei a noite no jornal, excitado, acompanhando tudo até a impressão. Quando os exemplares saíram, peguei alguns e fui levar na casa dos meus pais. Me sentei num sofá no quarto deles, todo sujo de graxa, e fiquei nervoso à espera do veredicto. Papai lia tudo página por página. Mamãe, idem. Ela terminou primeiro. ‘Ficou lindo, meu filho’. Meu pai, depois de examinar tudo com lupa, assentiu. ‘Tá muito bom. Parabéns. Vem cá dar um beijo no pai...’. Fiquei aliviado. Não haveria críticos mais severos.
Quinze anos depois, meu pai está morto, minha filha é uma adolescente e tenho mais um filho. O jornal mudou de sede, se transformou em um grupo de comunicação e hoje emprega quatro vezes mais gente do que naqueles anos 90. Quando decidimos que era hora de mudar de novo, estávamos muito mais preparados do que há uma década e meia. Agora tínhamos uma redação grande, designers, equipe de arte. Contratamos um estúdio espanhol especializado em redesenho de jornais que fez um grande projeto. Os técnicos argentinos dos sistemas informatizados já nos conheciam bem. Logo, não haveria traumas à nossa espera, certo?
Errado. Como da vez anterior, a implantação do projeto do novo Comércio consumiu muito tempo, dinheiro e paciência. Chegamos a adiar a estreia quatro vezes e já perdi a conta de quantas passagens foram emitidas para que profissionais paulistas, espanhóis e argentinos viessem a Franca para ajustes necessários. Pelo menos, desta vez, ninguém me perguntou o endereço da academia.
O novo Comércio estreou dia 18 de agosto. Por uma incrível coincidência, aniversário de morte do meu pai. Se as pessoas de fé estiverem certas, aposto que meu pai estava ao meu lado na madrugada de sábado para domingo da semana passada, no Comércio, onde esperei na gráfica a impressão dos primeiros exemplares, exatamente como fiz quinze anos atrás. Certamente, como todos nós, ele também ficou muito feliz com o que saiu das rotativas. Um jornal lindo, bem impresso, cheio de novidades que ressaltam seu caráter combativo. Papai deve ter sorrido como quase sempre fazia diante do jornal que tanto o orgulhava. O Comércio de quase 100 anos está novinho em folha, pronto para entrar no seu segundo centenário mais forte - e bonito - do que nunca. A serviço do leitor, como sempre. E, nunca é demais lembrar, de mais ninguém.
Corrêa Neves Júnior, diretor-executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
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