Pizzagate


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Num país de tantos desmandos e malfeitos, querer punir um rapaz por ter atirado duas pizzas ao chão é atitude de quem está completamente descolado da indignação que sacode o Brasil
Num país de tantos desmandos e malfeitos, querer punir um rapaz por ter atirado duas pizzas ao chão é atitude de quem está completamente descolado da indignação que sacode o Brasil

‘Há um mínimo de dignidade que o homem não pode negociar’
Dias Gomes,
dramaturgo brasileiro


Pizza. A palavra, italiana, tem significado universal. Nestas minhas andanças por tantos cantos, em jornadas pelo mundo recheadas de aventuras, descobertas e muita emoção, nunca topei com um lugar que, independente de seu tamanho ou localização, não tivesse entre seus restaurantes uma ‘pizzaria’.

Pode ser nas frias Bariloche, na Argentina, ou La Malbaie Pointe-au-Pic, no Canadá; nas icônicas Nova Iorque, Las Vegas, Washington, Miami e Orlando, nos Estados Unidos; Paris, Nice, Orléans e Aix-en-Provence, na França; Londres, no Reino Unido; Milão, Florença ou Veneza, na Itália; nas minúsculas Onzain, França; Loiano, Itália; Grand Canyon Village e Phrumph, nos Estados Unidos; ou ainda nas centenas de cidades brasileiras que conheço, o que inclui a surpreendente Caldas, em Minas Gerais, onde estive há uma semana, a regra é uma só: há sempre uma pizzaria por perto.

Ainda não tive o privilégio de conhecer Havana, capital de Cuba, ou Varadero, seu paradisíaco balneário, mas sou capaz de apostar que até ali, na ilha que tanto fascínio desperta nos políticos brasileiros, sejam eles importantes ministros de Estado ou apenas obscuros vereadores em fim de carreira, quem procurar vai encontrar um pedaço de pizza vendido por um punhado de moedas.

Tanto faz o destino, é certo que sempre haverá no lugar, na pior das hipóteses, pelo menos uma portinha onde o dono do estabelecimento ofereça a seus fregueses um pedaço de massa assada no forno, a lenha ou a gás, coberta com tomates, queijo e mais alguma coisa, a preços bastante razoáveis. Pizzas são onipresentes onde quer que se pretenda matar a fome com prazer e sem muita complicação.

Aqui no nosso Brasil o termo ‘pizza’ há muito deixou de designar apenas uma comida. A expressão ‘acabar em pizza’ resume a impotência diante de uma situação que, por mais óbvia e clara que seja, terá desfecho sem consequências por conta da inação dos protagonistas da vez. Quando uma coisa ‘acaba em pizza’ é porque não se apurou o que se devia, não se estabeleceram as responsabilidades, não se puniu quem de direito. Vale para o futebol, para uma briga de família, para um negócio malfeito sem solução... Vale, especialmente, para a política, seara onde o termo é aplicado com frustrante frequência.

Foi aqui em nossa Franca que na última terça-feira, na Câmara Municipal, diante do final absurdo de uma Comissão Especial de Inquérito criada para investigar supostas irregularidades no viaduto da Major Nicácio, que um jovem inconformado que via tudo ‘acabar em pizza’ resolveu protestar de forma sui generis.

Lucas Lespinasse, um rapaz simples, desempregado, mas ativo participante de movimentos sociais, não tinha grandes expectativas para o desfecho da CEI do Viaduto. Não que Lucas seja vidente ou tivesse informação privilegiada. Os passos do relator Claudinei da Rocha (PP) e do outro membro, Donizete da Farmácia (PSDB), ignorando o presidente da CEI, Márcio do Florida (PT), e se recusando a explicar o que continha o relatório final para a imprensa, já sinalizavam desde a véspera que tudo acabaria mesmo em pizza.

Inconformado, Lucas resolveu levar duas redondas que pretendia entregar aos vereadores. Mas o relatório final lido naquela terça-feira foi tão acintoso contra a inteligência de quem acompanha tudo de perto que Lucas Lespinasse não se conteve. Inconformado, atirou as pizzas no plenário. Ambas, de muçarela, não atingiram ninguém. Os únicos danos perceptíveis foram umas manchas de gordura no chão. Nada que meia dúzia de gotas de detergente e quinze minutos de esforço de alguém não resolva.

O que se viu, a partir daí, foi uma sequência de atitudes risíveis. O presidente da Câmara Municipal, Jépy Pereira - o mesmo que deixou uma sessão legislativa sob a justificativa de que tinha ‘assuntos administrativos’ a resolver, viajou para o Exterior e só voltou duas semanas depois, sem que desse qualquer justificativa a quem quer que seja - determinou instantaneamente que um assistente lavrasse boletim de ocorrência contra o rapaz. Não satisfeito, enviou ofício colocando o peso da instituição que lidera para pressionar a Polícia Civil a investigar o caso. E encaminhou ainda este à corregedoria da Câmara para que descobrisse se o ‘terrorista’ contou com ajuda de algum vereador para concretizar seu atentado. Tudo porque algumas imagens mostram o rapaz entrando no gabinete do vereador Luiz Carlos Vergara (PSB). A ‘suspeita’ é de que Lespinasse tenha armazenado ali os ‘perigosíssimos’ projéteis de muçarela que deflagrou. Patético.

É claro que Lespinasse não foi muito elegante em seu protesto, mas é absurdo querer responsabilizá-lo criminalmente pelo que houve. Vão acusá-lo de ‘porte ilegal de pizza’? Ou de ‘agressão à muçarela armada’? Será que o fato de Lespinasse ter ido ao gabinete de um vereador qualquer configura ‘formação de quadrilha’ para o presidente Jépy Pereira? Neste caso, seria ‘tráfico de calabresa’? Ou um ‘esquema’, tipo ‘Pizzagate’?

O cidadão Lucas Lespinasse ficou irritado, o que é compreensível, atirou as pizzas no plenário, o que foi um excesso, mas não acertou ninguém, não feriu uma mosca, não destruiu um grampo do patrimônio público. Num país de tantos escândalos, desmandos e malfeitos, querer puni-lo - civil ou criminalmente - por ter atirado duas pizzas ao chão é atitude de quem está completamente descolado do clamor popular, da indignação que sacode o Brasil, do cansaço com a classe política, mantra repetido de Norte a Sul. O pior é que, até agora, por mais incrível que possa parecer, Jépy Pereira parece ter apoio de seus pares. Em defesa do rapaz, ninguém levantou a voz.

Lucas Lespinasse é um jovem idealista, corajoso, que não se conforma diante daquilo que é, obviamente, intragável. Merece, antes de mais nada, respeito por traduzir um sentimento que é de muitos. A única censura possível a ele é por não ter servido a pizza, pedaço por pedaço, para cada vereador. Na ‘Pizzaria da Câmara’, seria muito mais oportuno que atirá-las ao chão. Nada mais.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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