Sempre que não conseguia materializar algum sonho; não achava a fórmula para realizar meus desejos; não descobria o caminho para alcançar qualquer intento, certeza: a culpa era de alguém
Eram culpados: pais, irmãos, amigos, a sociedade, a funcionária, a diretora ou o diretor da escola. Alunos, também. Até os filhos, que judiação, em algum momento foram responsabilizados pelo aborto de algum movimento meu rumo ao sucesso. Ou à felicidade. Botar a culpa nos outros é prática comum, simples, eficaz e livra a cara da gente: dá-nos a impressão de que somos bonzinhos demais e o mundo é carrasco. Não terminei as faculdades que um dia comecei. Meus bordados do tempo de solteira estão incompletos. Há livros escritos: basta que entregue os textos para revisão para serem publicados. Qual o motivo de não concluir esses projetos? Calo-me e saio de fininho resmungando palavras inaudíveis e incompreensíveis entremeadas por desculpas esfarrapadas. Ou dando respostas sem consistência: não marquei presença em algum compromisso? Justificativa: alguém tirou o relógio de perto. Atrasei? Causa: foi a cabeleireira. Não entreguei? Motivo: distraíram-me. Não fui? Perdão, chegou visita.
Durante anos usei todos os artifícios de raciocínio para provar ao terapeuta o quanto era maravilhosa e quanto o mundo conspirava contra mim. Derramei enxurradas de lágrimas, até. Ele me olhava, eu acreditava ter sua conivência e que ele me via como sofredora, incompreendida e alvo de maldição. Um dia, animadíssima, contei que realizaria velho sonho, nem tão secreto assim. Disse-lhe que pensava em fazer curso de francês em Paris. De morar lá por dois ou três meses e aprimorar meu conhecimento anterior. Que eu iria sozinha, experimentaria a sensação de ser dona do meu arrebitado nariz, do meu tempo, sabe como é? Comer quando tivesse fome, dormir quando tivesse sono, acordar quando o olho abrisse sozinho. Ler até desmaiar: essas coisas que a rotina atrapalha. E faria o tal curso na Sorbonne. Resgate de sonho de solteira! Ia voltar zerada com relação a esse desejo. Mais: meu filho havia feito pesquisa e informara que havia encontrado curso dentro das minhas especificações, que ele sabia onde eu poderia conseguir a quitinete dos sonhos, bem localizada e tal. Saí do consultório excitadíssima. E não fui para Paris.
Em memorável sessão, dias após, o assunto voltou à baila e ele perguntou como estavam os preparativos. Contei que não dera certo. Não? ele duvidou. Devo ter ficado cor de cera para responder que não. Não?! devolveu. Não, respondi, não posso. E emendei: tenho compromissos com meus filhos, minha mãe, com meu trabalho. Você quer enganar quem? questionou. Você não vai porque não quer ir. Admita. Será mais honesto, mais simples e digno. Não ponha culpa em ninguém porque você já é grandinha para assumir suas limitações. Reconheça que não é capaz ou que a façanha é excessiva para seu medo de ser feliz, por exemplo.
Não sei se reproduzi o diálogo com fidelidade. Mas o sentido do discurso foi exatamente esse, posso garantir. Lembro-me do pito toda vez que distraio e atribuo aos outros a responsabilidade pelas frustrações que me machucam.
Leitura
À pergunta “qual o melhor livro que você já leu?”, em pesquisa despretensiosa feita na internet, 30% dos leitores participantes responderam Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Não saberia responder. Mas se a pergunta fora “qual a leitura marcante na sua vida?”, responderia, sem hesitar: O fio da navalha, de Somerset Maugham.
Enredo
The Razor’s Edge conta a história do inquieto, insatisfeito e questionador Larry Darrell, jovem americano veterano de guerra, que abandona a vida de facilidades para encontrar significado para a vida. Passa pela França, vai para a Índia. Isabel, sua noiva, desfaz o compromisso e se casa com outro. Transformado pelas respostas conquistadas, Larry volta a Paris onde reencontra Sophie, amiga de infância desolada pela perda da família num acidente, que vive agora alcoolizada e entregue às drogas. Ao tentar ajudá-la, percebe as artimanhas de sabotagem da enciumada ex-noiva.
Versões
Duas: a deslumbrante de 1946, dirigida por Edmond Goulding, fotografia em preto-e-branco, produzida por Darryl F. Zanuck, figurinos de Oleg Cassini. Tyrone Power, Gene Tierney, John Payne e Anne Baxter encabeçam o elenco. A outra, de 1984, dirigida por John Byrum traz Bill Murray, Theresa Russell, Denholm Elliot e Catherine Hicks. Talvez influenciado pela inquietude do seu personagem na trama, Bill Murray fez pausa de quatro anos na indústria do cinema e foi estudar Filosofia na Sorbonne.
101
Os 101 Melhores Filmes da História do Cinema – título de publicação disponível nas bancas – traz concisa sinopse, informações sobre direção, ano de produção, justificativa da escolha. Também, histórias curiosas que envolvem essas produções e elenco. Claro, 101 listas de 101 pessoas diferentes dariam 101 outras opiniões. São referências no mínimo, curiosas. Opiniões sem pedantismo de quem gosta, para quem gosta de cinema.
Aspas
“O orgulho se relaciona com a opinião que temos de nós mesmos. A vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós.” (Jane Austen, escritora inglesa). 2. “Jornalismo e literatura são irmãos gêmeos que nasceram diferentes e que hoje são mais parecidos que nunca.” (Zuenir Ventura, jornalista e escritor brasileiro). 3. “A capacidade do homem para o mal faz a democracia necessária, e a capacidade do homem para o bem faz a democracia possível.” (Reinhold Niebuhr, teólogo norte-americano).
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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