Repúdio ao feminismo?


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Chegou com esse título a mensagem – me espinafrando – em resposta ao que escrevi semana passada

Refresquemos a memória. Lá eu dizia do fundamentalismo petista, da dificuldade da maioria dos associados da sigla receber críticas, de assumir erros e, evidente, ouvir avaliação negativa sobre qualquer - qualquer! - atitude do todo poderoso chefe do partido ou de sua protegida maior, temporariamente sentada no trono que julga ser seu. Assim, ousei falar da presidente do Brasil que, convenhamos, mora no Olimpo, mas é mortal. Tão mortal que ora é odiada, ora é exaltada, ora age com temperança, ora pisa no quiabo. E foi aí que o bicho pegou. Critiquei a forma autoritária com a qual ela insiste em ser chamada de presidenta, assim, no feminino. Não fosse ordem, injunção, ao menos um - um só! - subordinado seu teria liberdade de chamá-la pelo comum e prosaico presidente. E ninguém jamais ousou. Pisam em ovos e não perdem a oportunidade de reforçar a referência, quer ela esteja ausente ou presente.

Pois o leitor MF ficou fulo comigo. Havia reconhecido no texto que há autoridades que acordam com o esquisito e exótico feminino, mas acho que o leitor não viu pois acrescentou que a autoridade (ou seria o autoridade?) professor Pasquale Cipro Neto demonstra que o feminino existe e que ‘D. Rousseff tem todo o direito de escolher ser chamada de presidenta’. Exaltado, afirma ‘que o desejo dela é enaltecer a mulher, pois ela é a primeira chefe do executivo federal’. ‘Então, parabéns sra. Presidenta!’, exclama. ‘Olha nosso imundo passado quanto ao tratamento das mulheres.’ E termina: ‘fico pensando como alguém, principalmente do sexo feminino, refere a atitude da presidenta como ridícula e cafona’.

Bem, reconhecido o fato de que existe o feminino de presidente, ela tem o direito de desejar ser chamada assim. Tem sim, nunca disse o contrário. Mas acho cafona - o que tenho direito de achar. E entre escolher ser chamada e obrigar a chamarem-na há um intervalo. Tal imposição, que MF me perdoe, é que julgo ridícula. E julgar, avaliar, apontar, discordar e falar abertamente são pequenas e frívolas demonstrações de algo chamado exercício da democracia. (Se todos seus subordinados chamam-na presidenta, ponho-me a pensar: é porque são muito, muito feministas, também?) MF também se refere ao direito de voto da mulher, adquirido num passado recente. Tremi nas bases e maldosamente antecipei que ele diria que isso foi conquista do PT, de tão exaltado estava nas suas ponderações. Fiz tal pré-julgamento baseada na conhecida mania petista de se apossar das benfeitorias alheias: a criação da Bolsa-Família é uma, os rumos da economia no combate à inflação é outra, só para citar duas. Respirei aliviada: não era isso, ele fazia outra ponderação. Mas, querido MF, se mulher brasileira vota, mulher brasileira ainda apanha. Mulher brasileira não tem direito de legislar sobre seu corpo: não pode optar por interromper gravidez indesejada, não tem caminhos abertos para terminar gravidez traumática, não tem opção quanto à licença maternidade. O universo feminino ainda é legislado por homens - senadores e deputados - que fazem as leis sem nos ouvirem. Será que DR, a feminista, vai dar um jeito nisso? Comprometo-me, MF: se um dia ela se tornar nossa porta-voz, não quero bolsa alguma, mesmo que seja Chanel, e queimo meu sutiã junto com o dela. Mas continuarei a chamá-la presidente.

DÚVIDA
Se meu dentista surtar e começar a exigir ser chamado de dentisto em homenagem à sua condição de hétero, devo ficar de boca aberta ou fechada?

LIÇÃO
Não católicos admitem: Francisco, nascido Jorge Mário Bergoglio, 226º Papa da Igreja Católica, merece respeito. Simples e acessível, tem demonstrado através de atitudes o quanto é consciente de seu papel de pastor. Sua atitude em recusar aposentos mais suntuosos ou diferentes daqueles que serão ocupados por cardeais que o acompanharão na visita ao Brasil, tocou profundamente e provocou admiração nas suas e em ovelhas desgarradas, além de negras. Particularmente, espero que a notícia tenha chegado a Brasília e que na próxima visita ao exterior, acomodações menos suntuosas sejam aceitas pela Corte.

ZEUS
Zeus é considerado a suprema autoridade do Olimpo. Deus dos céus e dos trovões, chefe dos deuses, o filho caçula de Crono e Réia está sempre representado com ar arrogante, prepotente, mandão e autoritário. Conhecido por suas aventuras eróticas, teve filhos legítimos - e outros nem tanto - que se dirigem a ele como pai e se põem de pé diante de sua presença. Zeus supervisiona o Universo. Vingativo e matreiro, usa disfarces (como no caso de Leda) e argumentações descabidas (é provável que tenha sido o inventor de aberturas de início de discursos tipo ‘nunca antes na história desse reino’). Adora ser adorado. Na sua representação mais eloquente está despojadamente sentado em trono enorme e belíssimo e exibe ar autoritário e majestoso. Seu símbolo mais evocativo é o raio. Sua estátua era uma das sete maravilhas do mundo antigo - construída em terreno público. Os Jogos Olímpicos - Copa Grega - eram realizados em sua honra. Zeus tem todos os dedos, nas duas mãos.

ASPAS
1 - ‘As curvas só são perigosas em dois lugares: nas mulheres e em cima de uma moto. São elas que fazem da aventura um desafio gostoso.’ (Rolim, ex-presidente da TAM). 2 - ‘Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia.’ (Benjamin Franklin, estadista norte-americano). 3 - ‘Pode ser que um dia se passe mesmo o Brasil a limpo. Até agora a quadrilha política fez do Brasil apenas papel higiênico.’ (Millôr Fernandes, jornalista e dramaturgo brasileiro).

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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