Se dona Dilma, ao me encontrar na manifestação atrás de enorme cartaz reivindicando ‘Saúde, Educação. Decência e Dignidade’, me escolhesse, e chamasse para o lado
E, educadamente perguntasse: ‘Companheira, diz aí: por onde vamos começar?’, ficaria tão apavorada que sairia na disparada. Uma coisa é reivindicar, outra coisa é achar soluções e saídas. Passado o medo, respiraria fundo e diria à Companheira que primeiro ela teria que descartar João – o marqueteiro preocupado com sua imagem – e, segundo, me entregar o celular, aquele que é linha direta com Luís. Descartados os anjos do mal, teríamos conversa séria. Simples, séria e direta. Mas isso, se ela me chamasse.
Se priorizar e definir o início, o por onde começar, na barafunda das tão necessárias reformas brasileiras é difícil, não é preciso ser bidú para perceber que quatro das propostas e intenções do governo para curar a Saúde: trazer médicos estrangeiros - de Cuba ou Marte; injetar R$ 7 bilhões em hospitais e unidades de saúde; trocar R$ 4,8 bilhões de dívidas dos hospitais filantrópicos por atendimento médico ou criar 11,4 mil vagas de graduação em escolas médicas, só podem ser brincadeira. (Miguel Srougi, médico, no artigo ‘Depredando a saúde da nação’, foi inspiração para refutar os argumentos do governo federal).
Os médicos, em geral, alguns em particular, ficaram fulos com essas propostas. Primeiro, médicos são fundamentais, mas eles não trabalham sozinhos, precisam de apoio: enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais. Precisam de instalações - higiênicas e constantemente higienizadas - onde exercer a profissão: diagnosticar, perscrutar, investigar as doenças. Precisam de equipamentos, aparelhos e laboratórios. Contam com farmácias, onde os pacientes possam comprar remédios ou recebê-los gratuitamente, se for o caso. Segundo, recorrer às entidades filantrópicas afogadas em dívidas? Disparate: a difícil situação financeira em que se encontram e a inadimplência com os tributos - na maioria das vezes - têm como único culpado o próprio governo federal que não lhes paga os valores justos pelo trabalho. Terceiro - criar 11,4 mil novas vagas para alunos de medicina. Para viabilizar a intenção, o governo teria que criar entre 120 e 150 escolas médicas. Os próprios médicos se perguntam: com que recursos? Professores? Hospitais? Não precisamos de mais médicos, os próprios médicos afirmam. Precisamos de melhores hospitais, de mais aparelhos, de remuneração digna. O oficial do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) tem salário de R$ 2.260; o bombeiro começa com R$ 960. O médico, R$ 1260; o professor R$ 728. E o deputado federal, além de recursos até para comprar terno e gravata, limpinhos, mensalmente, no ano deles que tem mais de doze meses, recebe R$ 26,7 mil. Alguma coisa está errada, companheira.
Outra questão, essa moral: os médicos brasileiros que procuram trabalhar em outros países, passam por severas e sérias sabatinas, antes de serem admitidos. Os indianos que procuram trabalhar na Inglaterra, antes de receberem habilitação para o trabalho, também são literalmente colocados à prova. Os cubanos que seriam importados, também passariam por testes de habilitação? Fica brava, não. Perguntar não ofende.
Da situação calamitosa da Educação no Brasil nem saberia por onde começar. Religiosos falam em tornar santos os que lutaram contra a adversidade ou deram exemplo de permanência, coerência, fidelidade a princípios. Haja altar para colocar os professores brasileiros que resistem e trabalham sem condições materiais, em clima inóspito e hostil, em jornadas inumanas de trabalho.
Decência e Dignidade: diria meu cartaz na manifestação. Em 1895 nascia no Rio de Janeiro o cidadão Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, mais tarde também conhecido por Apporelly e por Barão de Itararé - falso título de nobreza - que seria jornalista, escritor e pioneiro do humorismo político brasileiro. (Política, que já era piada no Brasil desde o descobrimento, continuou a merecer chacotas por todo o século XX. Natural que viesse dar no esbandalho atual.) Dele, a sugestão para alcançar o ideal manifesto no cartaz. Abolir a Constituição, seus desvios e desvãos e implantar decreto único: ‘De hoje em diante, todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara. Revogam-se as disposições em contrário.’
HUMOR
‘O Barão de Itararé protagonizou muitas histórias malucas. Uma, ocorreu na década de 30, quando o Jornal do Povo (que durou apenas 10 números) publicou a terceira parte de imensa reportagem sobre a ‘Revolta da Chibata?’ um dos grandes desastres da história militar brasileira. Descontentes com o texto, grupo de oficiais da marinha sequestrou Aporelly. Depois de espancarem o jornalista, cortaram seus cabelos e o abandonaram em beco, só de cuecas (humilhação terrível para a época). No dia seguinte, quando voltou à redação, Aporelly mandou colocar aviso na porta de sua sala: ‘Entre sem bater’.’ (Raul Arruda Filho, na Internet)
LEI
‘A China criou lei que obriga filhos adultos a visitar os pais.’ Há dúvidas sobre a aplicação e funcionalidade da nova lei. Frequência das visitas? Punição em caso de não cumprimento das disposições? Há necessidade de conversarem? Quem verificará a qualidade dos encontros? Fazer lei é fácil. Difícil é sua aplicação. Complicada é a verificação de sua funcionalidade.
VÍDEO
Porta dos Fundos virou mania brasileira na internet. Produzem vídeos curtos fantásticos, engraçadíssimos e ácidos de fazer limão parecer melado. Entre os melhores estão: Parabéns, Na lata, Estaremos fazendo o cancelamento, Essa é pra você, Michelangelo. Mais de um milhão de acessos, cada. Para vê-los, acessar o Youtube e citar o título desejado no box de referência. Semana passada lançaram Reunião de Emergência, disponível em http://youtu.be/——C90xZOmsQ. Quase 4 milhões de views.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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