Quando pequena não distinguia amigo, de inimigo, nem entendia o significado
Intuía que amigo era encontrado entre vizinhos e primos. O companheiro de subir nas árvores, roubar jabuticaba, brincar de mocinho, mocinha e bandidos. Dividia doces e tardes comigo. Íamos às matinês dos cinemas, comprávamos pipoca, balas de puxa, víamos a banda no coreto, tomávamos sorvete no bar Santa Maria. Compartilhávamos os poucos brinquedos, dividíamos conhecimento para construir carrinhos de rolemã, trocávamos figurinhas repetidas de álbum, com as difíceis, fazíamos escambo, tipo você me dá o gibi tal, eu lhe dou a figurinha. Um apoiava o outro. Não havia competição, a vitória - de quem quer que fosse - era comemorada por todos. A derrota individual era tratada - e curada - através do esforço comum. Doenças - catapora, caxumba, piriris, amigdalites, gripes e resfriados - eram coletivas. Quantas vezes o bairro sossegou porque estávamos doentes.
Não tínhamos televisão, ‘aipedes’, ‘aipodes’, o neologismo eletrônico surgiria bem mais tarde, embora o ‘chip’ já existisse nos Estados Unidos que a gente achava, ficava pra lá da Lua, de tão longe. Inimigo só existia no nome, assim mesmo para podermos nos dividir em duas turmas, para as brincadeiras.
Não me lembro com tanta leveza do tempo de juventude. Penso nessa fase e voltam-me situações e experiências definidas pelo critério da comparação. Ainda hoje, comparar é confrontar. Confronto, rivalidade, escolha, preterição. Da preterição surgiam desavenças e delas, mágoas. A mágoa fazia nascer a inveja, que fora embalada pelo rancor e aí surgia a figura do inimigo. Inimigo, sinônimo de hostil, adverso e contrário. Parece simples, mas não é. Nesta fase, amigo era todo aquele que concordava e apoiava, sem questionar. Inimigo, qualquer que se opunha: fosse por hostilidade, incompatibilidade, inveja ou por desejo de proteger-nos das intempéries. Vê-se, o ser humano é muito complicado.
Na fase adulta, aliás mais que adulta, descobri pouquinho sobre o assunto e alterei internamente o significado das duas palavras. Depois de anos de terapia, olho aberto, experiências frustrantes, tombos e sapos engolidos na marra descobri que amigo é quem, independente de tudo, até espaço físico, está do seu lado; não concorda com tudo que você faz, mas o defende na adversidade; sente sua dor e sabe acalmá-la. Torce para outro time, mas vibra quando o gol é do seu. Acolhe e abraça com carinho. Tem paciência e é tolerante. Suporta seu brilho, quando os holofotes estão sobre você. Inimigo? É aquele que odeia, causa dano, prejudica e destrói. Não perdoa - odeia perder - não escuta, não recua. É movido pelo orgulho, vaidade e inflexibilidade em suas mais comezinhas ações. Provaram-me que posso ser minha melhor amiga: quando tenho consideração por mim, ajo sem máscaras ou sou capaz de não me atacar para vencer. E que nenhuma mandinga, patuá ou penca pode me salvar quando me desrespeito, me enfrento e posso morrer, ferida com minhas próprias armas. Nenhum ódio é tão intenso quanto o nosso, por nós mesmos.
FILME
Filme: Noite de Ano Novo. Pura e certa diversão, com penca de nomes conhecidos. Tem Robert de Niro, Jon Bon Jovi, Ashton Kutcher, Zac Efron, Michelle Pfeiffer, Hilary Swank, Halle Berry, Jessica Biel. Entre outros. Histórias paralelas, todas girando em torno do mesma tema: a magia da última noite do ano. Antes dos créditos finais, a mensagem que guardei - já que estamos no meio de 2013, para ler na passagem para 2014.
MENSAGEM
‘Há muita coisa no mundo que não podemos controlar - terremotos, enchentes, doenças, mas é importante lembrar daquelas que podemos - como o perdão, segundas chances, recomeços e que o agente transformador das tragédias e solidão em felicidade e alegria é o Amor, em qualquer de suas formas. O Amor nos dá Esperança e o Ano Novo é isso: Esperança. E uma grande festa.’
NOITE 1
Na Mitologia Grega, a Noite é filha do Caos. Sem princípio masculino gerou o Éter, o Dia, o Destino, as Queres (três entidades femininas, seres negros e alados, com grandes dentes e agudas unhas, que às vezes se confundem com as Fúrias e com as Parcas), as Parcas, a Morte, o Sono e os Sonhos, o Sarcasmo, a Vingança, a Miséria, o Engano, a Velhice, a Discórdia, a Ternura.
NOITE 2
Na visão de Ivan Lins, ‘A noite tem bordado nas toalhas dos bares corações arpoados, corações torturados, corações de ressaca, corações desabrigados demais. A noite tem falado nas cadeiras dos bares de paixões recusadas, de paixões descabidas, de paixões envelhecidas demais. A noite traz no rosto sinais de quem tem chorado demais. A noite tem deixado seus rancores gravados a faca e canivete, a lápis e gilete por dentro das pessoas, por dentro dos toiletes e mais: por dentro de mim.’
NOITE 3
Amiúde a Noite está associada à dor, tristeza, recolhimento, urdiduras e conjunturas. Momento de repensar, oportunidade de análise, ponderação, arrependimentos. Não se sabe de alguém que tomou decisão drástica sob o sombreiro na praia, em tarde de calor e sol a pino. Mas quem nunca esteve em frente ao copo, inspirado pela Lua, ‘olhando a fumaça no céu se perder’? A Noite é mistério. E beleza. Essas noites de Junho, então...
HIPOCRISIA
A PEC 37 foi derrotada. Apenas 9 deputados mantiveram-se favoráveis. A rejeição foi claro resultado da pressão popular. Pergunto-me: comemoro a coerência dos nove deputados ou lamento a hipocrisia dos outros que eram pró e ficaram contra depois das manifestações?
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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