Zé Trindade, humorista brasileiro, criador dos jargões ‘Mulheres, cheguei!’ e ‘Meu negócio é mulher!’, formatou a imagem do ancião que eu, ainda jovem, tinha certeza que odiaria no futuro, que percebo ter chegado
Que lamentavelmente chegou, aliás. Ele era grande artista, mas o tipo que encarnava - o do velho libidinoso, o do velho fauno tarado, do velho que sassaricava ‘na porta da Colombo’ me dava náuseas. Talvez porque naquele protótipo se encaixava um certo compadre, amigo da família, que não podia nos ver sozinhas e vulneráveis a mim e minha irmã - jovens e roliças adolescentes cheias de energia - sem tentar nos tocar, se esfregar na gente como se fosse a coisa mais espontânea, natural e involuntária do mundo. Quando o humorista aparecia, na televisão, dizia ‘mulé’ ou usava a expressão ‘libidinagem’ numa fala, com a boca mole e lambia os beiços, juro! sentia arrepios, de tanto nojo.
Ouvi um relato de festa de quinze anos. Decoração, comida, bebida e música foram descritas junto com a exuberância das adolescentes, de suas roupas, atitudes, maneiras e gestos. Falou-se dos sentimentos e percepções que pairavam no ar - frutos das reações das pessoas às circunstâncias da hora e do local. Maravilhadas, falavam das belezas desfrutadas. Porém, preocupadas, contavam dos excessos: o tamanho das saias das garotas que provocavam exposição gratuita de pernas e púbis nas coreografias eróticas desenvolvidas para acompanhar som e letras das músicas atuais.
Música? Maneira de falar. Tais composições não possuem melodia e as letras dessas jóias falam das poderosas ‘que descem e rebolam’; que mandam ‘ficar só olhando enquanto eu te provoco porque gosto de atiçar’. Através de suas obras os garanhões cantores ordenam: ‘abrir mais a blusa porque seja na boate, na cama, em qualquer lugar é só você que sabe me dar’. Dançar é fácil: basta acompanhar gestualmente a letra. Se ela diz: ‘você deixa o sabonete cair no chão, abaixa, eu venho por trás e créu!’, o dançarino faz ‘créu!’. Falando especificamente dessa especial produção musical, seu refrão é especialmente romântico: ‘escorrego, você abaixa e créu!’. (O iluminado autor dessa obra assina outra pérola: A dança da minhoca. Pode-se imaginar coreografia e letra.)
E foi aí que me lembrei do Zé Trindade. Enquanto eram descritas as reações físicas dos adolescentes de ambos os sexos cujos hormônios estão à flor da pele e quando se falou da dança erotizada das meninas, as pessoas se lembraram dos adultos homens (de faixa etária dos tios, pais, amigos mais velhos da família) que reagiram - visivelmente - à sensualidade da dança, sem ao menos disfarçar a concupiscência. As meninas percebem o interesse da outra parte, não duvido que se envaideçam com ela, mas não aposto que saibam direito o que estão sentindo, muito menos afirmo que sabem o que fazer com o turbilhão que vivem e provocam. Os meninos talvez fiquem mais perdidos, ainda.
O contexto, no entanto, pelo menos aos meus olhos: mostra o quanto a força sexual foi banalizada, a falta de limites e respeito nas atitudes sociais, a ausência de orientação dos jovens e a imensa dificuldade deles na interpretação, análise e aprovação de qualquer texto. Que aqueles velhos e libidinosos faunos aposentados da minha geração não desapareceram e estão aí, prestes a se materializar na geração das minhas netas. E que todos continuamos despreparados para lidar com o tsunâmico poder do sexo.
TRÂNSITO
Franca se assemelhava - há pouco tempo e no horário de fim de expediente de trabalho - a formigueiro de motos que surgiam do nada, superavam a velocidade permitida, invadiam corredores formados por filas de carros nos cruzamentos mais concorridos. Agora Franca tornou-se o formigueiro de motos que, independente de horário de pico, são responsáveis por acidentes, continuam surgindo do nada, trafegam em velocidade duas vezes acima do permitido. Há motociclistas responsáveis com suas próprias e com vidas alheias: são um quarto do total. Três quartos são selvagens, agressivos, irresponsáveis e mal-educados. Sem controle.
REPARAÇÃO
Dizem, menos de vinte funcionários da prefeitura municipal trabalham na manutenção dos jardins e praças de Franca. Embora pequeno contingente, seu trabalho é impecável, principalmente logo depois de executado, momentos antes dos vândalos atuarem. Mesmo reconhecendo a precariedade numérica do quadro funcional e a excelência do trabalho da equipe, o cidadão francano apresenta queixas: há praças que somente existem no papel e espaços públicos (como o da frente da escola que leva o nome do Coronel Francisco Martins) estão imundos e cheios de lixo. O canteiro ao longo da avenida Wilson Sábio de Mello, no Distrito Industrial, pede, urgente: reparação dos buracos da pista central, plantio de mais árvores e - não custa sugerir - iluminação, para segurança dos que a utilizam como local de prática de caminhadas.
NÍVEL
Edson Santos, deputado federal pelo PT/RJ, usou a tribuna da Câmara, no dia 16 de outubro de 2012 para mostrar-se preocupado com as 600 famílias ameaçadas de remoção por causa ‘de ação insana do presidente do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico, que deseja transformá-lo num Hyde ou num Central Park’. Afirmou que os cariocas não precisam do Jardim Botânico porque a cidade possui outros parques e espaços para passeio e circulação das pessoas, como o Aterro do Flamengo ou a Quinta da Boa Vista. Não esclareceu que seus parentes estão entre os invasores do espaço público; não demonstrou saber que o Jardim Botânico carioca foi criado em 1808 por D. João VI; que é reconhecido pela Unesco como Reserva da Biosfera e que é monumento nacional tombado pelo IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O discurso revela o nível de conhecimento e comprometimento dos homens públicos brasileiros e pode ser conferido pelo endereço http://www.youtube.com/watch? v=tp1PAu7S2—w
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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