De memória e saudade


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(Você escreve a favor, quem é contra diz que você é reacionário. Você escreve contra, haverá quem o chame de retrógrado....

Você defende, lá vem um pichá-lo de permissivo; se ataca, de agressivo. E experimente apenas comentar uma situação – como a síndrome que chamei de ‘autismo social’ – de gente deselegante e mal educada que ignora e jamais reconhece o semelhante quando cruza com ele nas ruas, nos bares, portas das escolas, filas, corredores de lojas, ou academias de ginástica. Se você escreve sobre suas experiências, se exibe; se escreve sobre as alheias, se intromete. O final da historinha do menino, do velho e do burro ajuda muito nessas horas. Aí você se senta diante do computador, tela em branco, deixa a emoção aflorar, lembranças fluírem, pensamentos voarem, palavras brotarem, e seu texto sai. Se você só pode falar sobre o que conhece bem, você só pode escrever sobre assunto que domina - o que não impede, eventualmente, de dizer borracha... E, então, não raro o assunto é sua própria experiência: entendeu o motivo? E comentar sobre o que você conhece bem não é cabotinismo, pode crer, embora às vezes possa parecer.)

No uso dessa independência, entre milhões de temas que poderia escolher, escolhi falar sobre homem que teve representação importante na minha vida. Não da humanidade, nem da comunidade, nem dos grupos aos quais pertenceu. Escolhi lembrar o homem lindo que faria 92 anos hoje, que foi meu pai, que morreu há 42 anos, no auge da vida. Dizem que o pai é o único homem que realmente ama uma mulher. Acho que foi o homem que mais me amou. Ou me amou de verdade. Implicava comigo, corrigiu-me implacavelmente todas as vezes que foi preciso, era exigente, um pouco infantil às vezes, falava errado, mas me defendeu feito leão nos anos 70 quando minha situação política ficou preta; protegeu-me quando o mundo queria me engolir e tenho certeza, seria capaz de matar qualquer um que me ofendesse na minha integridade. Era homem às antigas: seja carinhosa com seu irmão como treino para cuidar futuramente do marido; mas moderníssimo quando se tratava de liberdade feminina – você precisa estudar. Mulher precisa ser independente, ter profissão e jamais depender de homem, pregava.

Final dos anos 60, passados meus dois meses de reclusão doméstica por motivos políticos, era sábado e haveria baile no clube mais importante da cidade. Acho que depois de jogo do Parmêra, à tardezinha veio andando bem devagar pelo corredor do apartamento onde morávamos, cabeça caída de lado, polegares de ambas as mãos apoiados nas fendas dos bolsos da calça, camisa para fora do cós – elegância zero. Pensava. Parecia prestes a entrar no seu quarto, mas não. Virou-se à direta, bateu de leve na entreaberta porta do meu, viu-me deitada olhando para o alto, braços cruzados sob a cabeça. Entrou, sentou-se na beirada da cama e disse que era para eu me preparar porque eu iria ao baile aquela noite. Respondi nem morta! e me virei. Sem qualquer delicadeza, desvirou-me e, olhando-me feio – onde já se viu dar as costas para o pai? – completou: eu a levarei até a porta, depois você subirá as rampas sozinha, cabeça erguida, vai olhar para cada rosto que a encarar e se lembrar que não roubou, não matou, não foi desonesta, apenas paga o preço de escolher ser verdadeira e não esconder o que pensa. Você não é mais inteligente que ninguém: você é mais corajosa. Irá. Nem que eu tenha que te arrastar. Eu fui. Suei em bicas, furei as mãos com as unhas, de tão crispadas, mas fui. Talvez por isso nunca tenha aceitado indenização financeira que tanta gente recebe e acha normal. Dinheiro não cobre minha autonomia, nem muito menos, limparia meu nome.

Pois esse homem morria de medo do medo que sentia de ser operado da vesícula. Protelou tanto, que quando o levaram para a mesa cirúrgica foi sem condições físicas, e de tão debilitado, não resistiu. Mesmo transferido a Ribeirão Preto e entregue nas mãos de medalhões, não resistiu. Cinquenta anos, aquela beleza toda, aquele bom humor todo, recém-aposentado, prestes a começar a aproveitar a vida, pescar, sentar na praça, foi embora. Minha mãe ficou viúva com menos de cinquenta anos e, quando a atormentávamos para se abrir e deixar chegar outro companheiro, ela proferia um comprido Deuuuuuus me livre! E acrescentava: não me imagino deitada ao lado de outro homem, que não seu pai. Até entendo. Quando acordava, logo de manhã ela abria os olhos e dava com aqueles dois ímpares e maravilhosos faróis azuis em cima dela: deve ter ficado mal acostumada. Hoje, dia 24 de maio, faria 92 anos. Permito-me imaginá-lo sentado na sala, cercado pelos treze netos – três deles herdeiros dos faróis azuis, o caçula que leva seu nome, dois netos homônimos entre si, e pelas sete netas barulhentas e alegres – ele, que apenas conheceu um descendente seu de terceira geração. Imagino minha mãe ao lado dele na sala, posando para esta foto que jamais irá para o porta-retratos.

QUESTÃO
‘Indenização se refere à compensação devida a alguém, de maneira a anular ou reduzir um dano, geralmente, de natureza moral ou material originado por incumprimento total ou cumprimento deficiente de uma obrigação ou através da violação de um direito absoluto.’ Ziraldo, Carlos Heitor Cony, Lula (entre outros), diante desse conceito, onde vocês se encaixam para pedir ‘indenização’ que os brasileiros lhes pagam? (O menino maluquinho, para mim virou o menino sacana. E a foto com Cony, meu ídolo desde a adolescência, tirei da parede.)

VERDADE
‘Nossos pais nos amam porque somos seus filhos: fato inalterável. Nos momentos de sucesso isso pode parecer irrelevante, mas nas ocasiões de fracasso oferecem consolo e segurança que não se encontram em qualquer outro lugar.’ (Bertrand Russell)

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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