Lembra do tempo em que se fazia visitas? Pais davam banho nos filhos, os vestiam com roupa de domingo e alimentavam, antes de sair de casa
Vinham, então, com a catilinária tantas vezes recitada: comportem-se, nada de avançar se a dona da casa oferecer alguma coisa; agradecer e jamais repetir, mesmo que ela insista; não abram a boca a não ser para responder alguma pergunta dirigida a vocês; não entrem na conversa dos adultos; fiquem sentados; não mexam em nada. Não tinha televisão, tinha rádio e às vezes os anfitriões não se lembravam de ligá-lo. Pois ficávamos sentadinhos, cochilávamos, sem perder a compostura. Brigávamos em silêncio, nos cutucávamos. Mas era o pai ou a mãe fulminar a gente com o olhar, a gente se acalmava, cruzávamos as pernas e aí decorriam mais quinze ou vinte minutos de imobilidade. Meu pai tinha argumento infalível quando saíamos da linha: abria o paletó, punha a mão no cinto e tamborilava delicadamente sobre ele. Linguagem muda, mensagem clara porém eloquente: sossega menino dos mais eficientes. Se levei alguma surra? Claro. Naquela época não havia psicologia suficiente, a gente apanhava, levava beliscões, puxões de orelha, tapas na bunda. Antes da sova por causa de brigas quando ficamos maiores - e que só meu pai aplicava - mamãe usava eficaz recurso: punha os brigões (irmão e irmã) ou as brigonas (irmãs) sentados em minúsculo banquinho que acomodava apenas uma bunda inteira, com ligeira sobra de cada gomo na lateral. Pois ela punha dois, onde mal e mal cabia um e esquecia. Cada beligerante acomodava sua metade e ali ficávamos. Ousávamos sair? Nunca! Eram mútuos empurrões, cutucões, cotoveladas. Minutos depois, pesado silêncio do ódio. Faz-de-conta-que-nunca-te-vi. Mútuo desejo sussurrado entre dentes: quero que você morra! Instantes após, risadinha sem-vergonha de reconciliação. Jamais hora inteira de castigo, mesmo nas dissensões graves.
Aí veio a infância dos primeiros filhos. Anos 70, 80. Começou a se usar alguma psicologia. Nem tanto, convenhamos, mas algumas formas de corrigir filho se tornaram arcaicas. Tornamo-nos politicamente corretos. Tapinha na bunda, proibido. Puxar orelha, beliscar, reprovável. Converse com seu filho, explique-lhe em linguagem que ele entenda. E foi quando perdi a capacidade de me comunicar com eles através dos olhos, a exemplo do que faziam meus pais. Tentei, mas virava e revirava os olhos, olhava feio, soltava chispas, achava que estava feito um dragão... eles me olhavam com estranheza e, pior, acho que se riam de mim. Aí não fazíamos visitas a ninguém - íamos às casas dos avós, de algum tio e só. Perdemos o contato com a grande família - tios -avós, primos de segundo e terceiro grau. Quando ainda há coincidência de sobrenomes percebem, mas raramente reconhecem os parentes e nem sonham como desenhar linha de ascendência ou descendência. Coincidiu com a época da televisão e aí a maioria das casas criou novo espaço para divertimento: a sala de TV. Aí o segundo carro fez-se necessário. Tudo conspirava para a desconfiguração da antiga família.
Terceira geração. Com ela, computadores, ipads, ipods, vídeogames, DVDs e tudo que é eletrônico - parafernália maldita dos japoneses para se vingarem da derrota na Segunda Guerra Mundial... Pegam criações americanas, melhoram, sofisticam, tornam irresistíveis e tome lá a revanche! Nossos filhos usam linguagem codificada para falar, os netos dão banho de habilidade nos avós. Adeus reuniões e conversas de família. Terei criado bando de autistas? Grudam os olhos nos aparelhos e não ouvem uma palavra do que digo. Facebook e iphone substituiram bonecas, casinhas. Jogos virtuais de futebol e basquete atraem mais que os reais. Quando quero atenção, berro, mas temo que me denunciem a algum órgão de proteção à infância por maus tratos. Ganhamos ou perdemos com o progresso?
FRASES
1.Se você tem algum sonho, deve protegê-lo. (À procura da felicidade). 2. Você pode não acreditar em demônio, mas ele acredita em você. (Constantine). 3. Às vezes a melhor maneira de se encontrar é se perder na vida de alguém. (Aprendendo a viver). 4. Não se perde o que nunca se teve. (Como perder um homem em dez dias). 5. Aprendi três coisas na vida: não perder a oportunidade de fazer xixi; nunca recusar sexo e jamais confiar num pum. (Antes de partir).
VÍDEO
Stand by Me, música celebrizada por John Lennon, ao contrário do que se pensa, é de autoria de Ben E. King, Jerry Leiber e Mike Stoller. Os dois últimos são responsáveis por antológicas composições como Jailhouse Rock, Trouble, Smoke Joe’s Cafe, Round Dog, Poison Ivy, On Broadway: formaram famosíssima dupla de rock. Stand by Me foi regravada no projeto Playing for Change - Song Around the World executada por diversos artistas, cooptados ao redor do mundo. Vídeo emocionante, pode ser visto em http://youtu.be/Us-TVg40ExM.
TRÂNSITO
Construam-se viadutos, passagens subterrâneas, aéreas para pedestres ou motoristas; buracos para metrôs; trilhas para trens-bala; túneis. Gastem bilhões. Não vai adiantar. O trânsito francano continuará caótico enquanto não se educar o motorista, o pedestre, o ciclista e o motociclista. Limites de velocidade não são respeitados. Sinalização, ignorada por maior que seja a placa de advertência. Semáforos? É como se não existissem. Contra-mão e mão: sinais considerados aleatórios. Intenções de conversão, estacionamento ou vôo, então, uma piada: pouquíssimos motoristas avisam. O sinal verde aparece, o sujeito, do de trás buzina. O que educaria motorista, pedestre, ciclista e motociclista? Multas. Multas pesadas. Aposto.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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