Que moda é essa?


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Detalhe. Minudência. Pormenor. Dentre as fotos dos chefes de nação que foram cumprimentar o novo Papa Francisco, a da nossa Presidente Dilma chamou atenção.  

Notou-se, as coadjuvantes – quais sejam as esposas dos chefes de nação – cobriram a cabeça com véu preto. Ou com chapéu, como foi o caso de Cristina Kirchner, a presidente da Argentina. Ela, não. Se Dilma é atéia, não-cristã, livre-pensadora, não importa, o uso do véu ou do chapéu – cobrir a cabeça – faz parte do protocolo da visita ao Papa, o mundo todo – cristão e não-cristão – sabe disso. Se ela fosse, por exemplo, participar de cerimônia protocolar com a presença da rainha da Inglaterra teria que usar chapéu, gostando ou não da monarquia. Ou entrar numa mesquita: teria que, no mínimo, tirar os sapatos; no máximo, cobrir-se com os panos pretos dos pés à cabeça. É estranho, para não dizer deseducado, que tais regras não sejam cumpridas por ela. Insubordinação? Não cabia. Rebeldia? Ridículo! Indiferença? O nosso é o maior país católico do mundo e ali, naquela cerimônia, ela representava todos os brasileiros e o Brasil. Mil vezes crer que foi falha dos assessores, a pensar que ela desprezou esse pormenor, esse detalhe.

O uso de roupa a partir do momento que Adão se cobriu com a minúscula folha de parreira, passou a merecer atenção. Não se sabe se Adão comparava sua folha com a dos outros: o comprimento, talvez, tornando o gesto quase obrigatório entre os representantes do sexo masculino que o seguiram. (Imagino os comentários no Éden. De Adão para Caim: ‘Nossa! Como está grande sua folha, meu filho!’. Ou de Adão para o desafeto: ‘Essa folha de bananeira é para enganar quem?’ Eu apostaria que Eva inventava babadinhos, sianinhas, bordados, plissados e godês para incrementar sua folha e causar inveja nas outras mulheres. Imagino Eva fofocando: ‘Nossa! Ela está usando folha fora de moda!’. Ou então: ‘Linda, querida! Essa folha de malva! Comprou aqui?’). Tornada obsoleta a folha, apareceram as roupas. De couro, acredita-se, primeiro e, em seguida as tecidas em tear. O uso da roupa evoluiria, muito tempo depois, de mera proteção do corpo para tema de estudos, interpretações, avaliações, técnicas, observações que configurariam o que se convencionou chamar de moda que, de acordo com o dicionário ‘é fenômeno social ou cultural, de caráter mais ou menos coercitivo, e cuja vitalidade provém da necessidade de conquistar ou manter determinada posição social’. Tema fascinante, que também ajuda a desvendar esse mistério que é o ser humano. Depois das roupas, os acessórios. E, então, reflexo do que acontecia no Paraíso pós-serpente, começaram as avaliações de propriedade e impropriedade no vestir.

Há convenção social não-verbalizada que regulamenta o uso de roupas e acessórios. Claro, não é universal e fixa. ‘Fica bem’ ou ‘é de bom-tom’, são expressões recorrentes de avaliações resultantes daquelas regras. Fica bem, por exemplo, saia curta se você é jovem e tem pernas bonitas. É de bom-tom cobrir o colo quando a mulher entra num templo religioso – de qualquer crença. Fica bem roupa transparente no corpo escultural da Gisele Bündchen. Não é de bom-tom o uso de roupas transparentes para ir fazer compras no supermercado. Agora, algumas coisas, definitivamente, não ficam bem e não são de bom-tom: uma delas é mulher – da realeza ou da pobreza – não cobrir a cabeça diante do Papa. Em Roma, como os romanos, já dizia Nabucodonosor, meu primo distante.

MODA
‘Moda é a tendência de consumo da atualidade. A palavra moda significa costume e provém do latim modus. É composta de diversos estilos que podem ter sido influenciados sob vários aspectos. Acompanha o vestuário e o tempo, que se integra ao simples uso das roupas no dia-a-dia. É forma passageira e facilmente mutável de se comportar e sobretudo de se vestir ou pentear.’

TRAJES
Há festas para as quais se pede o traje soirée. Embora haja quem vá de jeans e manga de camisa, espera-se dos educados e educadas que usem smoking e vestidos longos. Bom lembrar que os curtos, embora cravejados de brilhos, não são exatamente de gala. Idem para os ternos completos. Nessas ocasiões são tolerados, mas não exatamente apropriados. Cuidado! Se receber convite para festa real e a sugestão for traje soirée, não apareça lá de roupa de Cirque Du Soleil ou de paletó e gravata, mesmo que Giorgio Armani! Questão de propriedade e impropriedade.

MUSEU
Inglaterra. Em Bath, cidade termal onde por algum tempo viveu Jane Austen, as atrações incluem visita ao Museu dos Costumes. Dele faz parte primorosa coleção de roupas de época. Se não dá para ir, visite pela Internet: www.museuofcostume.co.uk.

VIADUTO
Pesquisa de opinião pública revelaria que o francano não ficou muito satisfeito com os resultados do viaduto. O trânsito continua ruim, os bestas de plantão ainda acreditam que estão em pista de corridas – pela velocidade e por cortarem a frente dos outros motoristas, o pedestre tem que rezar para conseguir atravessar a pista e chegar vivo do outro lado.

NIETZSCHE
‘Não é raro encontrar cópias de grandes homens. E, como acontece com os quadros, a maior parte das pessoas parece mais interessada nas cópias do que nos originais.’

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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