Senão...


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Nós, os velhos - assim considerados principalmente do ponto de vista de filhos, netos e alunos - quando crianças, ouvíamos ordens obedecidas cegamente, senão...

À mesa, na escola, no cotidiano, na relação com amigos e colegas éramos estimulados a acolher e acatar ordens, algumas vezes absurdas, inquestionáveis quase sempre, que vinham pontuadas por ‘senão...’, advertência dita (ou não dita) em tom ameaçador de advertência, que sugeria muitas alternativas, algumas nem um pouco agradáveis.

Bastava sentar à mesa, já começava a arenga: menina, não arraste a cadeira! Menina repita quantas vezes quiser, mas não abarrote seu prato! Menina não mastigue com a boca aberta! Menina não fale com a boca cheia! Meninos não discutam durante a refeição! Isso não é assunto para este momento (quando se falava de política e doenças). Menina, senta direito! Menina, volte para a mesa: não saia enquanto alguém estiver comendo! Menina, agora não é hora de falar ao telefone, nem de ver televisão: desligue isso! Meninos, se vocês discutirem novamente, irão para seus quartos, sem terminar de comer! (Importante lembrar que o pai era Palmeiras, um irmão sãopaulino, dois irmãos corintianos, a mãe nada e a irmã idem). Senão...

Para irmos à casa de alguém – quando convidados, claro – tinha decálogo: 1. Pedir licença para entrar. 2. Cumprimentar os donos da casa e demais pessoas que estiverem no local. 3. Não pedir algo que não lhe tenha sido oferecido (especificamente era para meu irmão guloso cujos olhos saltavam quando via na casa dos outros, guloseima rara em casa, como chocolate...). 4. Quando oferecido e aceito algum paparico para comer, jamais pedir bis. 5. Nunca abrir a porta da geladeira alheia. 6. Não entrar nos quartos, muito menos abrir gavetas. 7. Se precisar usar o banheiro, peça licença para fazê-lo, use e não esqueça da descarga. (E só o use para o número um, segure o número dois, até não aguentar mais.). 8. Não chupe o nariz. 9. Diga ‘Saúde!’ se alguém espirrar. 10. Quando vier embora, despeça-se dos donos da casa, agradeça. Senão...

As regras de convivência social eram estritas e rigorosas. Não responda aos mais velhos. Não entre numa casa sem ser convidado. Jamais pergunte a idade de alguém. Respeite as pessoas com as quais convive: chamar alguém de senhor ou senhora não é garantia de respeito. Respeito é reconhecer a existência do próximo, estabelecer limites e permanecer dentro deles. Não gaste mais do que tem e, se não tem, não tome emprestado. Senão... Mandavam-nos repetir à exaustão: Obrigado!, Dá licença?, Por favor..., Desculpa!...

Na escola, dançávamos miudinho. Professor tem sempre razão. Professor completa aquilo que os pais devem dar aos filhos. Jamais seja indelicado com seu professor. Nada de intimidade com seu professor: fique atento à hierarquia! Seu professor ficou bravo com você? Abaixe a cabeça e se cale! Se eu souber que você na escola respondeu com má-criação quem quer que seja ... (meus pais queriam dizer do funcionário mais simples ao diretor)... você já sabe! (Sim, eu já sabia: bons tapas, puxões de orelha, castigos, impedimentos etc). Mudaram os tempos, desaprendemos ou perdemos as rédeas no conduzir das novas gerações?

SABEDORIA
No filme Igual a Tudo na Vida / Anything Else, Jerry (Jason Biggs), escritor de programas de TV, ouve histórias e conselhos de David (Woody Allen), veterano roteirista de cabeça cheia de teorias. David explica a Jerry: ‘Há enorme sabedoria nas piadas. Sério. Há velha piada sobre campeão que está no ringue. Ele está sendo massacrado, levando uma surra. Sua mãe está na platéia. Ela o vê apanhar. Sofre. Ao sacerdote sentado ao lado dela ela diz: ‘Padre, reze por ele!’ O sacerdote responde: ‘Sim, rezarei por ele, mas ajudaria se ele, também, socasse’. Jerry sempre encontra alguma ordem prática nas teorias de David, que afirmava: ‘Até um relógio parado e quebrado está certo duas vezes por dia.’ (Os Melhores Diálogos do Cinema, de P. Fender)

PERSPECTIVA
‘Pediu-se a alguns estudantes que elegessem novas Sete Maravilhas do Mundo. Terminado prazo de entrega, enquanto os votos eram apurados, a professora percebeu aluna calada, com a folha quase em branco diante dela. ‘Está difícil?’, perguntou-lhe. ‘Muito! Não consigo me decidir: há tantas!’, respondeu a aluna. ‘Então nos diga o que já elegeu: talvez possamos ajudá-la a completar a lista.’ Com timidez e hesitação a menina leu em voz alta o rascunho no seu papel para a classe, que ouviu atônita: ‘Acho que as Sete Maravilhas do Mundo são Ver, Ouvir, Tocar, Provar, Sentir, Rir e Amar.’

ORGASMO
Na década de 60, a sensação de levitação e frio na barriga provocada ao descer e subir a ponte – nem viaduto era – da General Telles, em carro com velocidade ligeiramente alta para os padrões da época (ali pelos quarenta, cinquenta) era chamada de ‘orgasmo das virgens’. Nos anos 90, as virgens ganharam outro local para experimentar a tal emoção também chamada de ‘pequena morte’: o viaduto da fábrica Amazonas. Vinte anos depois, quase não há mais virgens. Ainda bem, porque se elas dependessem do sobe-e-desce do mais recente viaduto francano para alcançar a sensação, ficariam a ver navios: nem bem subiu, já desceu e acabou. E, se a velocidade do veículo superar os quarenta, o condutor vai levantar vôo que, sem o orgasmo, pode ser bem chato.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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